O que está em jogo com o jogo no Brasil?

Opinião de Julio Gavinho

 

Escrevi um artigo há uns três anos sobre o jogo no Brasil intitulado “O jogo no Brasil e o sofá do corno”. Minha perspectiva era comparável à do marido traído pela esposa no sofá da sala com o vizinho e que, para evitar novas traições, jogou fora o sofá. Meu argumento é contra a ideia de que o jogo vai inaugurar uma fase de violenta evasão fiscal, como se a receita federal não existisse para coibir exatamente isso. Não aceito, muito pessoalmente, o argumento de que, não podendo fiscalizar os cassinos, eles devem ser proscritos. Tertúlia flácida para adormecer bovinos.

O Legislativo está sentado sobre um projeto de lei que regula os jogos de azar no País desde 1991. São 29 gloriosos anos em que o debate foi o menos presente dos elementos democráticos no Congresso Nacional brasileiro. É como se não existissem jogos ilegais, como se eles não alimentassem o monstro da violência mafiosa no Rio, como se os bingos não vivessem à sombra da realidade e, enfim, como se a sociedade não participasse desse feroz conluio criminoso comprando nossas cartelinhas de R$ 5 nos bingos clandestinos ou “colocando” nossas moedas de R$ 1 na águia ou no veado. Estamos todos com as mãos comprometidas, pintadas da tinta azul dos carimbos ou cartelas ilegais de bingo.

Entre legalizar o que já deveria ser legal e distribuir licenças por meio de um pacto federativo no mínimo ineficiente, o Legislativo e a Caixa Econômica Federal (braço executivo da jogatina) devem olhar para o jogo no Brasil como olham os investidores. Esses possíveis futuros donos/investidores em cassinos ou bingos olham primeiramente para uma sigla chamada GGR (receita bruta de jogo em português). Ela determina o apetite ou não por vultosos investimentos em uma certa cidade ou região e, a partir daí, calculam o volume de investimento a ser feito.

Por exemplo, um cassino em São Paulo com um hotel de mil apartamentos e parrudo centro de eventos tomaria cerca de R$ 2,5 bi de investimentos. Muita grana, não é? Sim e é diretamente proporcional às receitas de jogo, hospedagem, alimentação e eventos de um complexo como esse. Onde mais poderíamos considerar números e investimentos dessa dimensão? Talvez em um ou dois resorts de praia no NE.

Gravitam ao redor desse racional, pequenos bingos em diversas cidades do Brasil, gerando impostos e empregos onde existem impostos e empregos a serem gerados. Essa, porém, não é uma realidade estática como advogam alguns usando o exemplo de Las Vegas – desenvolvida sob o signo de ilegalidade, bem no mafioso século passado. Quando há a discussão sobre a distribuição de licenças de jogo à sombra (não à luz!) do pacto federativo, não só criamos produtos e oportunidades que não interessam ao capital investidor como limitamos a possibilidade de maiores investimentos para os grandes centros turísticos. Essa análise de viabilidade não pode ser feita jogando dados políticos e torcendo por um resultado favorável.

Além do entendimento da operação que queremos, estamos naquele momento crítico de definir como ficamos mais bonitos e atraentes aos grandes galãs do jogo no mundo. A Caixa Econômica Federal precisa estudar e definir um pacote de apoios e incentivos nos mesmos moldes de grandes fábricas etc.

Uma operação desse nível e desse setor enfrentará desafios monumentais para lograr êxito. As barreiras vão desde projetos arquitetônicos e construção civil até o muro quase intransponível da mão de obra turística brasileira. Recrutar e selecionar funcionários para um hotel cassino relevante será um desafio talvez tão grande quanto treinar e desenvolver as mesmas equipes de cassino, de hospedagem e de alimentação.

O Brasil é a última grande fronteira do jogo mundial. Algo assim como a refilmagem da série dos anos 1960 “Star Trek”, só que com dinheiro de sobra para efeitos especiais.

Receber os investimentos dos grandes “cassineiros” como Apollo Investments, do megafichas Stanley Ho ou o one-man-show Sheldon Adelson significa colocar terras bazucas sob os holofotes da imprensa mundial – especializada em turismo ou não.

Veja só: os portugueses que fincaram o pé em Macau ao redor de 1560 legalizaram o jogo chamado por lá, chamado de “sorte ou azar” em 1847. 1847! Hoje, 20 anos depois que foi declarada em acordo sino-lusitano “região administrativa especial de Macau”, a receita de impostos do jogo cresce a cada ano e é uma das mais relevantes. Não vou gastar tinta de impressora para falar de empregos, transformação social, receita de impostos, blábláblá.

O que vou fazer é pedir, gentilmente, à subcomissão do jogo no Congresso que, por favor, use o sofá ou desocupe-o de uma vez para acabar com essa ansiedade toda.

 

Julio Gavinho é diretor na Lyon Capital Investimentos Imobiliários, professor do curso de MBA em Hotelaria de Luxo e do curso de MBA em arquitetura de luxo da Faculdade Roberto Miranda

 



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