Em Paris, na França, o Museu do Louvre fecha suas portas uma vez por semana porque os funcionários dizem que as multidões são tão grandes que se torna difícil administrá-las. No Himalaia, os alpinistas do Monte Everest estão preocupados que o pico se tornou tão lotado que aumentou, consequentemente, o número de mortos.

Em cidades e destinos turísticos ao redor do mundo, de Barcelona a Bali, o chamado “overtourism” está se tornando um problema grave.

No Porto, em Portugal, velhos cafés deram lugar a franquias do Starbucks e o boom de aluguéis em curto prazo aumentou os preços dos imóveis para os turistas locais.

Um misto de promoções de passagens aéreas, hospedagens baratas do Airbnb e o massivo compartilhamento de fotos nas redes sociais levam multidões de turistas para lugares onde, até pouco tempo atrás, havia apenas silêncio ou um charme do cotidiano. É o caso da Rue Crémieux, perto da Bastilha, em Paris — é um dos destinos mais postados no aplicativo na Europa até a metade do ano no Instagram.

Construída no século 19 por trabalhadores pobres de Paris, as casas da rua são pequenas, pintadas com cores em tons pastéis, com janelas em luz fluorescente e com portas direto para a rua. A viela, feita de pedra, não é aberta para carros. “A gente senta para comer na varanda e tem gente tirando foto do nosso almoço, grupos musicais que ficam filmando por horas justamente embaixo da nossa janela ou despedidas de solteiro em que as pessoas gritam a tarde inteira. É esgotante”, disse um morador, que não quis se identificar, à rádio RFI.

A rua também é um caminho incomum para os parisienses: o mais comum é encontrar prédios de apartamentos, não casas, nas vias mais calmas da capital francesa — todos pintados da mesma cor padronizada, o bege.

De acordo com o departamento de turismo de Paris, ligado à prefeitura, a cidade-luz recebeu 23 milhões de turistas em 2017 — o número de 2018 ainda não foi calculado. Foi um crescimento de 11% em relação ao ano anterior e de 5% comparado a 2014, comemorado depois dos ataques terroristas que a capital francesa enfrentou no passado recente.

“Os turistas estão atropelando a própria atração que eles vieram ver”, escreveu o professor Joel Deichmann, de Estudos Globais da Universidade de Bentley, em Massachusetts, nos EUA, ao jornal Washington Post.

Algumas comunidades, como a da Rua Crémieux, começaram a demandar regulações dos Estado e anúncios públicos pedindo aos turistas que se “comportem”. Mas a grande força do overtourism, para os especialistas, vem do Instagram.

“O Instagram ganhou essa força muito pela autenticidade das postagens. O fato de a foto ser de alguém que não está vendendo um pacote turístico para aquela região dá mais credibilidade, confere genuinidade ao local”, disse Gabriela Otto, professora da ESPM e presidente da HSMAI Brasil (Hospitality Sales and Marketing Association International), ao Nexo.

Já há vários negócios no mundo hoje voltados para um turismo saudável: Pavia Rosati, fundadora do serviço de viagens Fathom e co-autora do livro “Travel Anywhere” (“Viajar para qualquer lugar”, sem tradução para o português), por exemplo, afirma que viajantes indo para destinos “exóticos” não devem desembarcar nestes locais achando que vão apenas “adicionar alguma coisa estrangeira para sua coleção”.

“Se você quiser conhecer templos budistas na Tailândia, por exemplo, é desrespeitoso adentrar neles com bermudas ou saias curtas. É adequado conhecer esses códigos e se adequar a eles”, completa.

Deichmann contou que, nas viagens frequentes que faz com seus alunos para o exterior, os aconselha a ser sensíveis e cuidadosos com os residentes locais. “Em um metrô ou em um ônibus em uma cidade europeia, por exemplo, as pessoas costumam ler ou ficar quietas sentadas. Então, é adequado evitar falar alto ou tirar selfies”.

Moradores de locais turísticos, por sua vez, estão procurando novas formas de se engajar com suas cidades. Em Viena, uma empresa oferece “aventuras urbanas” pela capital, incluindo o “Ugly Vienna Tour” (“Passeio pela cidade feia”), o “Corruption Tour” (“Passeio da corrupção”), o “Midnight Tour” (“Passeio da meia-noite”) ou o “Smells Like Vienna Spirit Tour”, em que os turistas exploram os cheiros da cidade. A agência afirmou ao jornal britânico The Times que 80% dos clientes são moradores locais.

No Porto, a agência The Worst Tours leva turistas a fábricas abandonadas, velhas linhas de trem, terrenos vazios e ruas depreciadas. O ponto final do passeio é um shopping no centro que faliu na metade dos anos 1990, e que agora oferece cafés baratos e estúdios para bandas locais.

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