A questão da relação entre pais e filhos fica mais desafiadora na situação de famílias formadas por filhos de casamentos anteriores dos parceiros. Obviamente, a questão é tanto mais complexa quanto mais casamentos anteriores com filhos os novos parceiros tiverem tido. Assim, um novo casamento em que os parceiros tiverem apenas um casamento com filhos da união anterior será uma situação bem menos desafiadora do que se tiverem tido três ou quatro casamentos. Pretendemos examinar qual relação, na perspectiva sistêmica de Hellinger, se aconselha que os pais tenham com seus filhos e enteados; mas também a relação entre irmãos, meio-irmãos e filhos do outro parceiro; obviamente também a relação dos cônjuges com seus ex-parceiros.

Vamos começar o exame com a análise da relação entre os ex-parceiros. Escreve Hellinger: “Quando um casal se separa e mais tarde ambos se casam com outros parceiros, que por sua vez já têm filhos de relações anteriores, essa paternidade é anterior à nova relação de casal. Em um caso assim, a paternidade tem prioridade sobre a nova relação” (Hellinger, B. Lograr el amor en la pareja, p. 130). Aqui, Hellinger enuncia o princípio em base ao qual a ordem de precedência se estabelece: em um segundo vínculo, o filho do primeiro casamento tem prioridade em relação ao amor dedicado ao novo parceiro. O motivo dessa prioridade é, segundo Hellinger, o fato de que o amor em relação a este filho emana da relação anterior e não da atual; ou seja: ele chegou antes. Por isso, o novo parceiro vem em segundo lugar. Em terceiro lugar virá o filho da nova relação.

Isso se torna mais complexo na medida em que, para Hellinger, a ordem de precedência se estabelece em base ao seguinte princípio: “O anterior tem precedência sobre aquele que vem depois. Contudo, o novo sistema tem prioridade sobre o antigo” (Hellinger, B. Lograr el amor en la pareja, p. 131). Isso parece paradoxal. Vamos buscar entender melhor.

Quando há vários casamentos, na ordem de colocação o primeiro parceiro tem precedência sobre o segundo e assim sucessivamente. O mesmo vale para os filhos de sucessivos casamentos: os filhos do primeiro casamento têm precedência sobre os do segundo e assim sucessivamente. No entanto, no que diz respeito ao “sistema familiar” o último sistema tem precedência em relação aos anteriores. A pergunta que nos vem de imediato é: quando temos um novo sistema? Basta simplesmente um novo vínculo? Hellinger responde: “sistema novo significa: casal com filhos. Um casal simplesmente não é nenhum sistema novo. Uma relação de casal com filhos forma um novo sistema” (Hellinger, B. Lograr el amor en la pareja, p. 131).

Vamos ilustrar isso com um exemplo prático. Digamos que uma pessoa foi casada por três vezes com filhos em cada casamento. Neste caso, a sequência fica assim: primeiro parceiro com os filhos; segundo parceiro com os filhos; terceiro parceiro com os filhos. Os membros (parceiros e filhos) mais antigos têm precedência sobre os mais novos, mas o último sistema familiar tem precedência sobre os anteriores, ou seja, a família atual prevalece sobre as famílias anteriores.

Uma vez que tivermos clareza dessa questão da ordem de precedência, fica mais fácil compreender a relação sistemicamente adequada entre pais e enteados. Trataremos disso na próxima postagem.a


JOSÉ LUIZ AMES E ROSANA MARCELINO são terapeutas sistêmicos e conduzem a Amparar.

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