Cotidiano

Uma pianista e um violinista a serviço da música clássica atual

RIO – A voz da pianista Elena Bashkirova subiu um tom ao ser avisada de que estaria no Rio no mesmo período que o violinista Gidon Kremer, como atrações da série O GLOBO/Dell’Arte, respectivamente, nesta quinta e no sábado: “vou mandar uma mensagem agora para ele. Quero encontrá-lo”, disse ela, por telefone, na semana passada. Os dois músicos ja estão no Rio. Nascidos na antiga União Soviética (ela, na Rússia; ele, na Letônia), foram casados entre 1977 e 1982 e são defensores da liberdade e da música feita por compositores vivos.

Kremer, há três anos, fez um concerto em Berlim do qual participou o pianista Daniel Barenboim, marido de Elena desde 1988, contra o governo de Vladimir Putin e em defesa dos direitos humanos na Rússia. A pianista, por sua vez, dirige o Festival de Música de Câmara de Jerusalém, que fundou há quase 20 anos, e não se esquiva de críticas àquele país.

— Na Alemanha, onde moro, a cultura tem papel protagonista. A música é subsidiada pelo governo. E a quantidade de concertos e óperas é enorme. Não é o caso em Israel. Os cortes na cultura são tão grandes que eu não sei como ela sobrevive — conta Elena. — Quando o festival começou, me fizeram falar com o ministro da Cultura, para pedir consentimento, mesmo sem o governo nos dar um centavo. Eu me senti como na antiga União Soviética, quando me foi pedido que incluísse mais compositores locais nos programas. Eu disse que não, que era um festival internacional e que era importante ter música de fora.

Ela diz que foi Kremer quem deu o primeiro impulso à sua carreira de concertista e estimulou seu interesse por música contemporânea. Desde então, ela faz o mesmo pelos seus ouvintes.

— Todo ano, fazemos pelo menos uma première de um compositor vivo no festival. É importante apresentar programas que não deem apenas um prazer passivo, mas que despertem a curiosidade do ouvinte. A música contemporânea não é desvalorizada. Ela tem um público razoável. Mas, infelizmente, grande parte do público de concertos é setorizado. Há um voltado para a música contemporânea como há um para a barroca — opina Elena, que se apresenta amanhã, às 20h, no Teatro Municipal, com seu Jerusalem Festival Chamber Ensemble tocando Beethoven, Schubert, Bartók e um pouco conhecido quarteto para clarineta de Hindemith. — Todo músico bom precisa ser capaz de tocar música nova. É importante para o seu desenvolvimento e para o do público. Não é que as plateias não entendam a música contemporânea. Eles não a conhecem direito. Mozart, Brahms e Tchaikovsky são adorados porque já foram muito tocados. É uma questão de repetição.

Na Alemanha, onde moro, a cultura tem papel protagonista. A música é subsidiada pelo governo. E a quantidade de concertos e óperas é enorme. Não é o caso em Israel. Os cortes na cultura são tão grandes que eu não sei como ela sobrevive

Em cartaz no mesmo teatro no sábado, às 16h, Kremer é procuradíssimo por compositores em atividade. No programa, há um deles, o russo Alexander Raskatov, ao lado de Beethoven, Schumann e Piazzolla.

— Eu devo admitir que recebo uma quantidade muito maior de partituras do que sou capaz de estudar e tocar. Minha escolha de novas obras para meus programas é muito intuitiva, e eu fico feliz quando elas levam a outras colaborações com os autores, como o Victor Kissine, que recentemente criou para mim um concerto para violino maravilhoso. Atualmente, estou completamente focado na música de Mieczys?aw Weinberg, um compositor contemporâneo de primeira grandeza e ainda muito subestimado. A Kremerata Baltica (conjunto com o qual Kremer se apresenta no Rio) acaba de gravar todas as suas quatro sinfonias de câmara, e eu espero que isso seja lançado no ano que vem — conta ele, antes de enumerar as qualidades que preza nas partituras. — A música que me atrai é a que tem uma mensagem espiritual e não se limita a ser uma construção intelectual como um Lego. Pode ser tonal, experimental ou música pop, mas precisa estar ligada a emoções e ter uma certa profundidade. Para mim, isso é mais importante do que as técnicas de composição usadas.

Sobre sua atuação política, ele é modesto:

— Eu não considero política a minha atividade. Contudo, eu sou contra quaisquer regimes totalitários ou autocráticos e tenho dificuldade de dialogar com artistas que os apoiam. Minhas manifestações contra injustiças e meus concertos em prol de vítimas desses regimes são gotas num oceano. Mas eu não posso ficar indiferente ao que acontece ao meu redor, seja Donald Trump, torcedores brigões da Rússia ou da Inglaterra na Eurocopa ou matanças brutais que repetidamente acontecem nos EUA. Tudo isso me causa dor, e felizmente a música me ajuda a processá-la.