Cotidiano

Na Jamaica, museu homenageia Bob Marley na casa onde ele viveu

 

KINGSTON – Com pouco mais de um milhão de habitantes, poucas atrações e trânsito movimentado, Kingston não costuma integrar o roteiro de turistas que vão à Jamaica. Os resorts luxuosos e as praias paradisíacas de Montego Bay, Negril e Ocho Rios, na costa norte da ilha caribenha, compreensivelmente são os destinos preferidos de quem visita o país.

Mas a capital jamaicana guarda uma atração imperdível para fãs de reggae, ou até para quem não curte o tradicional ritmo local. No número 56 da Hope Road, fica o Museu Bob Marley, construído na casa onde o rei do reggae morava em Kingston.

Ao pé da cama, dois violões

A casa de dois andares e arquitetura colonial foi comprada pelo músico em 1975 e transformada em museu 12 anos depois, pela mulher de Bob Marley, Rita. Ali, Bob escreveu alguns de seus grandes sucessos, sofreu uma tentativa de assassinato e viveu até maio de 1981, quando morreu em decorrência de um câncer.

Ao entrar no pátio do museu, é impossível não se encantar com os muros pintados em cores vibrantes. Em uma das paredes estão representados os rostos dos filhos de Bob Marley, como Ziggy e Damian Marley, eles próprios artistas de sucesso. No centro do pátio, repousa imponente uma estátua do cantor, guitarra em punho e braço direito levantado, como se estivesse fazendo um show para quem está prestes a conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra do músico.

A partir dali, porém, quem comanda o show é Ricky Chaplin. Músico jamaicano dono de uma voz potente, um bom humor contagiante e dreadlocks de mais de um metro, Ricky leva os visitantes por cada cômodo do museu, contando histórias da carreira de Bob Marley. As paredes são cobertas por discos de ouro e platina recebidos pelo rei do reggae, fotos da carreira, roupas, cartazes, recortes de revistas e jornais. Enquanto lembra aos visitantes que fotos não são permitidas dentro da casa, Ricky canta hits de Bob e puxa um coro formado pelos turistas.

Impacto no local do crime

O tour pelo museu dura 1h15m, passando pelo quarto, onde dois violões descansam ao pé da cama. Passa ainda pela cozinha de Bob Marley, onde o malicioso guia descreve a receita da bebida afrodisíaca que era consumida pelo músico para não ter problema na “hora H”. A deixa é perfeita para Ricky cantar a plenos pulmões o refrão “Get up, stand up! Stand up for your rights!”, arrancando gargalhadas de todos. Para quem duvida do poder da bebida, cabe lembrar que Bob Marley teve nada menos do que 12 filhos…

O quarto transformado em estúdio, onde Bob ensaiava e gravava, não pode ser visitado. Só os filhos do músico têm permissão para entrar no local, considerado sagrado. O tour passa, porém, por uma área nos fundos da casa onde, segundo a lenda, Bob Marley escreveu o sucesso “Three little birds”, sentado em um degrau. A letra da música está pintada na parede, e o lugar é um dos favoritos dos visitantes para fotos.

Em outra área ao ar livre, um enorme mural representa um trecho de outro sucesso de Bob, “No woman, no cry”. Com sorte — foi o meu caso — o visitante pode se deparar com Georgie Robinson passeando pelo local. “Georgie quem?”, você pode se perguntar. Saiba que, certamente, você já cantou o nome dele. Amigo de Bob, Georgie está na letra de “No woman, no cry”: “And then Georgie would make the fire light…” (“e então Georgie acenderia a fogueira”). Lembrou?

Antes de terminar, com um vídeo mostrando trechos de entrevistas de Bob Marley, a visita passa pelo seu momento talvez mais impactante. Nos fundos da casa, o guia mostra o local onde, em 1976, o músico foi vítima de uma tentativa de assassinato. Atiradores dispararam contra ele, a mulher Rita e o empresário Don Taylor. Rita e Don tiveram ferimentos graves, mas se recuperaram, e Bob foi ferido de raspão no peito e no braço esquerdo.

O atentado não impediu Bob Marley de se apresentar no show gratuito organizado pelo primeiro ministro jamaicano, que muitos apontaram como a causa do ataque ao rei do reggae. Quando aconselhado a cancelar o show, pois ainda se recuperava dos ferimentos, Bob respondeu que “as pessoas que estão tentando fazer um mundo pior não tiram um dia de descanso, então também não vou tirar”.

Bob escreveu uma canção sobre o episódio (“Ambush in the night, all guns aiming at me…” / “Emboscada na noite, todas as armas apontadas para mim…”). O caso nunca foi esclarecido, e os buracos de bala continuam nas paredes da casa, numa lembrança triste da noite em que a violência tentou calar um músico conhecido pelas canções de paz, amor e esperança.

SERVIÇO

Bob Marley Museum. 56 Hope Road, Kingston. Preço: a visita guiada sai por US$ 25 (cerca de R$ 87). Horário: das 9h30m às 16h, de segunda a sábado. O museu fecha aos domingos. bobmarleymuseum.com