Esportes

Halterofilista sonha ser o primeiro do Brasil com medalha no esporte

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Fernando Reis tem um sonho. Ser o primeiro brasileiro medalhista olímpico no levantamento de peso. Para isso, o atleta não mede esforços. E quando se trata de alguém cuja categoria no esporte é acima de 105kg, isso significa levantar de 40 a 50 toneladas por dia nos treinamentos. A título de comparação, é como se Fernando levantasse um caminhão de seis eixos com a sua carga máxima. Por partes, é claro.

Levantamento de peso

Fernando tem uma estimativa na cabeça. Algo em torno de 440 e 450kg. Para ele, esse é o peso de uma medalha olímpica. É o que o atleta precisa levantar no combinando entre arranco e arremesso para subir ao pódio.

O cálculo de Fernando é certeiro. Neste ano, apenas os dois melhores do ranking levantaram este peso: Lasha Talakhadze, da Geórgia (463kg), e o armênio Gor Minasyan (442kg). No ano passado, apenas os três primeiros do ranking chegaram lá: Talakhadze (454kg), o egípcio Mohamad Ehsan Attia Massoud (441kg) e o russo Ruslan Albegov (440kg). O atleta da Geórgia e os iranianos Behdad Salimi Kordasiabi, quarto do ranking com 430kg, e Bahador Moulaei, sexto do ranking com 427kg, são apontados como adversários na briga pelo ouro. Albegov também estava na sua lista como o principal rival, mas o halterofilista foi vetado pela federação internacional por causa do escândalo de doping da Rússia.

– As medalhas serão disputadas entre isso. Menos de 440kg não tem medalha. E acredito que não seja muito mais do que 450kg. Ou seja, seriam 200kg de arranque e 240kg ou 245kg de arremesso ? disse Fernando, que garante estar perto de atingir essa marca.

– Estou muito perto disso – completou o atleta, que deve competir no grupo A, dos atletas que levantam maior peso, no dia 16, no Riocentro.

Desde os Jogos de Londres-2012, o primeiro que o paulista de 26 anos disputou, o halterofilista vem crescendo paulatinamente. Na Olimpíada, ele levantou 400kg, ficando em 12º lugar. Em 2013, sua melhor marca foi de 410kg no Campeonato Mundial de Breslávia, na Polônia, quando foi o sétimo colocado.

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No ano seguinte, Fernando foi nono lugar no Mundial de Almaty, no Cazaquistão, com 420kg. Em 2015, foram dois campeonatos e seus melhores desempenhos: 425kg no Campeonato Mundial de Houston, nos EUA, quando foi 11º lugar, e os 427kg que lhe garantiram o ouro pan-americano em Toronto, no Canadá. E é assim, subindo de quilo em quilo, que Fernando quer chegar ao ápice na competição olímpica.

– Você tem um ciclo de trabalho onde vai melhorando o alicerce ou as suas debilidades físicas. Cada atleta tem uma característica diferente. Então, o treinador faz um design de treinamento só para o atleta para a gente conseguir chegar num plano final na competição e melhorar as marcas ? explicou.

FORÇA DA TORCIDA?

Fernando conta que a experiência de Londres foi fundamental para o atual ciclo olímpico. Ele não tem qualquer frustração da lesão que sofreu no joelho que o impediu de ter um desempenho melhor na disputa em Londres.

Será algo bacana de vivenciar, mas não sei o quanto isso fará diferença na hora H

– A experiência de Londres foi muito gratificante. Fui um dos mais jovens da minha categoria (22 anos) e consegui absorver bastante informação para chegar agora no Rio e conseguir representar bem o Brasil ? disse o atleta, que acha que o peso de ter uma torcida a favor pode ser um combustível a mais.

– Vai ser bem legal. É claro que não tem como influenciar diretamente (na disputa), mas é mais um empuxo, uma motivação para você conseguir competir bem e se sentir realmente acolhido pelo público. Será algo bacana de vivenciar, mas não sei o quanto isso fará diferença na hora H.

DIETA DOS CAMPEÕES

Por falar em combustível, um atleta do nível de Fernando tem uma verdadeira dieta dos campeões para manter-se no peso e ter a força necessária para levantar um caminhão por dia.

Um dia normal de Fernando tem uma série de suplementos, um café da manhã bastante reforçado que inclui misto quente, seis a oito ovos cozidos, dois pães franceses e frutas a vontade. O almoço é tipicamente brasileiro: arroz, feijão, bife e batata frita. O lanche da tarde é semelhante ao café, mas sem os ovos, enquanto o jantar é regado em proteínas e massa. Fechando o dia, uma refeição ?leve? parecida com o café ou o lanche da tarde. No meio disso tudo, treinos, sessões de fisioterapia e crioterapia.

A alimentação super reforçada e feita a cada 2h ou 2h30m é fundamental para que o atleta se mantenha em forma. Afinal, Fernando perde de 3 mil a 4,5 mil calorias por dia.

– Mesmo que eu esteja descansando, meu corpo gasta caloria porque causa do trabalho que a gente tem. Fiz um trabalho pesado, rasguei todas as fibras musculares, todo o tendão, então tudo está desgastado. O organismo está trabalhando para recuperar ele e eu estou perdendo calorias constantemente – explicou.

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E quem pensa que o doce, o terror de qualquer dieta, fica de fora do dia a dia de Fernando, está muito enganado. Ele pode comer à vontade. Apenas não abusa mais tanto, pois sua relação com a comida é diferente da de uma pessoa normal que gosta de comer.

– Eu como bastante doce, mas depois de um tempo não é mais a mesma coisa porque você começa a comer mais como combustível do que como prazer. É mais uma obrigação. Mas eu como sorvete. Quando eu estava subindo de peso, eu comia bastante sorvete porque é algo prazeroso e é algo que coloca bastante caloria no corpo. Normalmente, à noite eu sentava com um pote de sorvete inteiro. Fiz isso por um bom tempo. Hoje em dia eu não como muito doce. Se tiver, eu como, mas não sou louco por doce ? conta.

PREPARADO PARA COMPETIR

A reta final do atual ciclo olímpico apresentou percalços para o brasileiro. Neste ano, ele sofreu duas lesões graves, algo que nunca tinha acontecido na sua carreira. Teve um rompimento parcial de 50% do tendão lateral medial e um rompimento total do peitoral menor. No caso desta última, havia até o risco de uma cirurgia, o que o tiraria dos Jogos.

– Era uma opção, mas se eu precisasse fazer a cirurgia eu estaria fora dos Jogos. Mas a gente conseguiu recuperar o mais rápido possível o peitoral e eu estou zero quilômetro ? garantiu.

Todo o esforço é válido para tentar conquistar uma medalha inédita para o esporte e que ajude a impulsionar ainda mais a popularidade dele no Brasil.

– O levantamento de peso ainda é uma modalidade pequena, mas que vem crescendo. E tem muito a crescer ainda. Estamos aproveitando um movimento muito bacana que é o do crossfit, uma modalidade nova no Brasil que tem uma das vertentes no levantamento de peso. As pessoas comuns estão indo para a academia e, ao invés de fazer o treinamento normal, estão fazendo levantamento de peso como preparação física. E isso realmente está ajudando muito a popularizar o esporte ? encerrou