Ambulatório pós-UTI do HU ganha destaque internacional

O tratamento desses pacientes melhorou substancialmente

As UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) são tradicionalmente vistas como locais em que a maioria das pessoas (pacientes) morre, e que, portanto, sobreviver já é um grande “lucro”. No entanto, na atual fase da Medicina, o tratamento desses pacientes melhorou substancialmente e hoje a maioria dos pacientes admitidos em uma UTI sobrevive.

Mesmo na UTI do HUOP (Hospital Universitário do Oeste do Paraná), por exemplo – em que há pacientes muito mais graves do que em outras UTIs da cidade e região -, a mortalidade é de 29%, de acordo com pesquisas; portanto, segundo os médicos do hospital, a maioria irá para casa.

No entanto, essa melhora dos resultados da Medicina gerou outra situação: como ficarão os sobreviventes de uma doença gravíssima e que ficaram por vários dias no ambiente ameaçador e sombrio da UTI – há algum tipo de sequela ou complicação crônica?

Pensando nisso, há cerca de 15 anos começaram-se a criar nos EUA e na Europa ambulatórios de pacientes pós-UTI para avaliação e acompanhamento destas pessoas. Têm-se detectado, desde então, vários tipos de complicações (físicas, psicológicas e sociais) nos pacientes que ficaram vários dias em UTI (“à beira da morte”) e até mesmo em seus familiares, durante meses após a alta hospitalar.

Projeto Pioneiro

A equipe da UTI de Adultos do HU criou em julho de 2008 um ambulatório pós-UTI (ou seja, funciona há quase 11 anos), sendo o primeiro ambulatório do gênero no Brasil. Atualmente, apenas dois outros hospitais no Brasil também têm um ambulatório do tipo: o Hospital de Clínicas e o Hospital Moinhos de Vento (ambos de Porto Alegre), criados há três anos.

Esse ambulatório do HU conta com uma equipe multiprofissional (médico, enfermagem, psicologia, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição e serviço social), que atendem o paciente três meses após a alta. São aplicados na consulta (que dura cerca de três horas) testes clínicos e funcionais para avaliação do status físico e psicológico atual, bem como questionários sobre o impacto social e financeiro da doença aguda e do internamento na UTI.

Apesar de ter uma finalidade basicamente científica (ou seja, gerar dados e informações sobre como estão estes pacientes sobreviventes), esse ambulatório também tem servido como avaliador da própria qualidade de assistência (seja da UTI, do hospital quanto do sistema de saúde ambulatorial pós-UTI), o que tem permitido fazer sugestões e intervenções para melhoria.

Reconhecimento

Os médicos Jaqueline Barreto da Costa, Sheila Taba, Julia Racardi Scherer, Lucian Oliveira, Kelen Luzzi, Daniela Gund, Gabriel Sartori, Itamar Porto, Amaury Jorge e Péricles Almeida Duarte já ganharam prêmios e visualizações significantes mundo afora com as pesquisas desenvolvidas dentro do hospital, a mais recente publicação do grupo foi o artigo “Psychological disorders in Post-ICU survivors and impairment in Quality of Life”, na revista “Psychology and Neuroscience” (revista da Associação Americana de Psicologia), em abril/2019.

Na pesquisa, foi estudada a incidência dos distúrbios psicológicos (avaliados através de entrevista e questionário aplicado pela equipe de psicologia) dos pacientes sobreviventes pós-UTI, bem como o impacto e consequências desses distúrbios (ou seja, se os pacientes tinham alteração em sua qualidade de vida).

Segundo Péricles Almeida Duarte, quase a metade (45%) dos pacientes tinham distúrbios psicológicos (tais como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático), e, o mais importante, que esses distúrbios eram fortemente relacionados com a má qualidade de vida nesses pacientes.

Portanto, os achados desse grupo de pesquisadores pode ajudar a literatura médica a avaliar melhor o impacto a longo prazo de doenças graves (como infarto, derrame cerebral, sepse e politraumatismo), bem como de tratamentos realizados durante o internamento (como respiração artificial, antibióticos e diálise).

Atualmente, a equipe de pesquisadores do ambulatório está realizando várias outras pesquisas, incluindo avaliação do impacto financeiro e social (principalmente em famílias de baixa renda), consequências físicas e motoras (particularmente em pacientes vítimas de trauma de trânsito), e distúrbios nutricionais e desnutrição nessa população.

 

 



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