Cotidiano

Thierry Goater, professor: 'Sem emoções não podemos mudar o mundo'

“Tenho 51 anos, sou francês, pesquisador e professor de Literatura Inglesa da Universidade de Rennes 2. Apaixonei-me por idiomas ainda pequeno. Era uma forma de me comunicar com pessoas diferentes. Comecei com inglês, alemão, latim, até ver que o mais importante era a literatura.”

Conte algo que não sei.

A luta pela liberdade e emancipação das minorias nunca estará terminada, assim como a manutenção da democracia é um processo contínuo, que nunca terá fim. Não podemos pensar, nem por um momento, que um retrocesso é impossível. É como na política. Quando um partido conservador ganha cargos, ele pode criar leis que nos levem de volta ao passado. Se algo está terminado na vida, não é vida, e sim morte. A vida tem que evoluir o tempo inteiro.

A literatura pode ajudar nessa luta?

Pode parecer que a literatura tem um papel pequeno na mudança da sociedade, principalmente se comparada a um panfleto político, por exemplo. Mas, mesmo pequeno, é importante, pois a literatura é uma ferramenta magnífica para mudar a mentalidade das pessoas ao apelar às suas emoções. Thomas Hardy, um novelista vitoriano que eu estudo, acreditava piamente nisso. Se a arte tem algo a fazer é apelar para as emoções dos leitores. Sem emoções nós não podemos mudar o mundo.

Como assim?

A literatura permite que as pessoas tomem consciência das coisas. Sem a literatura, sem as artes de forma geral, talvez elas não conseguissem enxergar certos problemas. Quando escrevi minha tese de doutorado, descobri que Hardy gostava de defender as pessoas, principalmente aquelas em situação social desfavorável, e especialmente as mulheres. Elas eram as pessoas mais sofridas da sociedade na época, mas, ao mesmo tempo, as personagens mais interessantes em seus romances e contos. Apresentando-as dessa maneira, ele forçava os leitores a enxergarem como as mulheres eram oprimidas, a perceberem que havia algo errado na maneira como nossa sociedade patriarcal as tratava. Outro fator importante para que isso aconteça é o processo de identificação. Quando você força um leitor com o pensamento mais conservador, seja homem ou mesmo mulher, a se identificar com uma heroína oprimida o escritor força o leitor a tomar partido da luta daquela mulher oprimida, daquela vítima.

E você acha que, hoje, os artistas utilizam bem isso?

Penso que sim. Quanto mais tecnológico e sofisticado é o nosso mundo, mais iremos precisar de arte. Porque, num mundo nesses moldes, os sentimentos tendem a ser suprimidos e deixados de lado. Como a arte apela às emoções, sempre vamos precisar dela para representar as minorias e defendê-las. É claro que existem autores chauvinistas e extremamente sexistas, e não podemos evitar que eles existam, mas a maioria dos artistas tem uma sensibilidade com o que há de errado na sociedade. Na verdade, eu acredito que os artistas sejam os olhos da Humanidade, que nos mostram aquilo que não conseguimos enxergar. Há uma força reveladora nas artes.

Muito tem se falado sobre a importância da representatividade das minorias na arte e na cultura pop. Essa representatividade importa?

Sim, claro. A literatura e todas as formas de arte podem ser usadas na luta contra os estereótipos. Isso é muito importante, pois vivemos cercados de clichês. É preciso mudar o nosso ponto de vista, envolver as minorias no mainstream. As artes precisam incluir essas pessoas para que elas possam ter voz. Ser minoria é uma questão de poder e não de quantidade. Então, o papel das artes, da literatura, é representar essas minorias e dar a elas a possibilidade de falar e expressar quem elas são.