Uma parceria público-privada entre a Embrapa e a empresa Bioma oferece pela primeira vez ao mercado brasileiro um inoculante totalmente desenvolvido a partir de tecnologia nacional. O produto denominado BiomaPhos alia sustentabilidade e produtividade porque é biológico – produzido a partir de duas bactérias identificadas pela Embrapa, sendo uma no solo e a outra no milho – e capaz de aumentar a absorção de fósforo pelas plantas, o que pode mudar o quadro de alta dependência brasileira do mercado internacional de fertilizantes.

À Embrapa coube a parte de pesquisa, com a detecção das bactérias que apresentam aptidão para solubilizar ou tornar disponível o elemento fosfato. Esse mineral é indispensável para o crescimento e a produção vegetal, já que interfere nos processos de fotossíntese, respiração, armazenamento e transferência de energia. Concluída essa etapa, a empresa Bioma estabeleceu os índices de produção em larga escala e a formulação do produto, que permitiram melhor sobrevivência do inoculante na prateleira e nas condições de campo.

“As cepas dessas bactérias conseguem fazer com que maior quantidade de fósforo seja absorvida pelas raízes, recebendo em troca compostos fundamentais para o crescimento bacteriano, como fontes de carbono, em especial açúcares e ácidos orgânicos”, explica a pesquisadora da área de Microbiologia do Solo da Embrapa Milho e Sorgo Christiane Paiva, responsável pela pesquisa que culminou com o lançamento do produto comercial.

A pesquisa

A pesquisa teve início em 2002 e o desenvolvimento do inoculante se deu a partir de 2011. A parceria com a empresa Bioma foi firmada em 2016, chegando ao lançamento do produto comercial em 2019.

Aumentos médios de produtividade

Resultados de experimentos na cultura do milho conduzidos em regiões brasileiras mostram aumentos médios de produção de grãos de cerca de 10%, o que pode corresponder a um ganho médio de até dez sacas por hectare. “Esses experimentos avaliaram a inoculação combinada com a adubação reduzida de superfosfato triplo, o que pode diminuir o gasto para o produtor com fertilizantes sintéticos”, destaca a pesquisadora Christiane Paiva.

Outro diferencial do uso do inoculante é uma redução significativa no índice de emissão de CO2 na atmosfera. “Com isso, os resultados demonstram que é possível empregar uma tecnologia limpa e de baixo custo na cultura do milho, contribuindo para a sustentabilidade na agricultura, sem perdas para o meio ambiente”, reforça.

Diferenciais

Os inoculantes produzidos com esses microrganismos apresentam menor custo, não causam danos ambientais e ainda podem ser usados para suplementar os fertilizantes. “Além disso, a adição de inoculantes no solo pode acelerar a ciclagem de nutrientes, aumentar a liberação do fósforo presente na matéria orgânica e enriquecer o solo biologicamente. Além disso, esses inoculantes apresentam outros mecanismos de promoção de crescimento para as plantas”, complementa a pesquisadora Christiane Paiva.

Estudos conduzidos pela Embrapa revelam que há um estoque bilionário de fósforo nos solos, que se encontra inerte e que não pode ser aproveitado pelas plantas.

Menos dependência

A necessidade de aplicação de altas doses de fertilizantes para atender à demanda das culturas se traduz em maior dependência externa, segundo o pesquisador Ivanildo Evódio Marriel, membro da equipe, já que mais de 50% dos fertilizantes fosfatados são importados.

Somente no primeiro semestre de 2019, a importação de adubos e fertilizantes atingiu o maior patamar na história do País, chegando a US$ 1,25 bilhão, valor 67,4% superior ao mesmo período de 2018.

A conjuntura se agrava pela tendência de aumento de preços. Segundo dados do Instituto de Economia Agrícola o preço médio da tonelada do superfosfato simples em março deste ano foi de R$ 1.378,81, valor 8,6% superior se comparado ao mesmo mês de 2018.

“Preços voláteis de fertilizantes fosfatados criam insegurança para agricultores em regiões onde o recurso é escasso, e choques de preços podem tornar o insumo inacessível aos agricultores de baixa renda”, analisa a pesquisadora Christiane Paiva.

O produto já está disponível no mercado para a próxima safra de verão.