Policial

?Quero ser julgado?, diz Alessandro Meneghel

Em prisão domiciliar, ruralista concedeu entrevista por telefone a O Paraná

Cascavel – Acusado de matar no dia 14 de abril de 2012 o policial federal Alexandre Drummond Barbosa, o ruralista Alessandro Meneghel concedeu, por telefone, uma entrevista exclusiva a O Paraná. Em prisão domiciliar, Meneghel procurou a redação na quarta-feira (21), depois da publicação de uma enquete que pedia a opinião dos cascavelenses sobre seu julgamento fora de Cascavel, em Curitiba, neste caso.

Todos os entrevistados foram contrários. Meneghel disse à reportagem que queria ser julgado em Cascavel e que foi do Ministério Público o pedido para que o júri fosse em outra cidade. Segundo a defesa do ruralista, não há previsão de quando ele sentará no banco dos réus. Especula-se que isso só ocorra em 2016.

O Paraná – A reportagem questionou a população sobre seu julgamento ser em Curitiba. Todos criticaram. O que você tem a dizer sobre isso?

Alessandro Meneghel – Quem pediu o desaforamento do julgamento foi o Ministério Público. Sempre fui contra isso. Queria ser julgado e absolvido na minha cidade, em Cascavel.

O Paraná – E com relação ao crime ao qual você está sendo acusado, o que você pode falar?

Meneghel – Só foi divulgado o que a Polícia Federal passou. Ninguém contou para a população que ele já tinha brigado com outras duas pessoas dentro da casa noturna, que ele usava da profissão, dando os chamados “carteiraços” para se valer de benefícios. Sou um homem de bem, trabalhador, uma pessoa certa. O que aconteceu foi uma fatalidade que não fui eu quem provoquei. Você sabia que levei 14 tiros? Dois me acertaram.

O Paraná – Você acha que foi injustiçado?

Meneghel – Não cabe a mim dizer se a prisão foi justa ou não. Quem ligou para o delegado da Polícia Federal na época fui eu, disse que iria me entregar, contei o que havia acontecido. Não é verdade o que foi falado, dizendo que eles foram na minha fazenda me prender. Eu me entreguei.

O Paraná – Como será sua defesa?

Meneghel – Tenho cartas na manga. Minha defesa está cuidando de tudo. Um dos questionamentos que posso adiantar é o fato de que foi pedido em juízo para que não seja apresentada a perícia do veículo. Se acham mesmo que sou culpado, por que não querem perícia? Porque mentiram. A Polícia Federal usou do seu poderio para me prejudicar. Briguei pelo certo, me defendi. Coisa que é de responsabilidade do Estado fazer.

O Paraná – Muitas pessoas dizem que o fato de você ter dinheiro pode influenciar no julgamento.

Meneghel – Graças a Deus tenho dinheiro e consegui com o fruto do meu trabalho. Nunca usei dinheiro para me prevalecer sobre alguma coisa. Uso para ter uma vida confortável, uma vida boa.

O Paraná – Há alguns meses a Justiça lhe concedeu o benefício da prisão domiciliar com uso de tornozeleira eletrônica. O que mudou na sua vida?

Meneghel – Nada. Só fico em casa, é uma situação bastante difícil porque não posso sair. Tenho meus negócios pendentes, não posso trabalhar. A única coisa boa é que posso ajudar a cuidar da minha mãe.

O Paraná – Como foi ficar preso mais de três anos?

Meneghel – Isso me prejudicou muito, sofri pra caramba. Passei fome, frio, não tinha coberta lá dentro. Fiquei em um cubículo sem cobertura, sozinho. Só quem está lá dentro sabe como é. Nunca fui agredido fisicamente, mas sofri agressões verbais. Vi agentes batendo em muitos presos, quebrando pernas, clavículas. O preso já está em uma situação complicada, já tiraram o direito de ir e vir. Não precisa agredir. Quando eu saí da PIC (Penitenciária Industrial de Cascavel) foi porque reclamei da comida. E a situação continua a mesma. Falaram que eu ajudava os presos. Sim, ajudava as famílias. O Estado não disponibilizava advogados para quem não tem, e muitas vezes a pessoa fica presa lá dentro por falta dessa assessoria.

O Paraná – Durante a rebelião da PEC (Penitenciária Estadual de Cascavel), você foi apontado como um dos líderes do motim. Isso é verdade?

Meneghel – A rebelião só aconteceu por ineficiência e inoperância da administração que não tem uma linha de conduta correta. O Estado deveria me agradecer de eu estar lá intermediando as negociações porque senão iria morrer muita gente se eu não intervisse lá. A Polícia estava atirando nos presos. Eu estava de cara limpa. Não sou do crime, sou trabalhador. O que aconteceu foi que o promotor que está me acusando me usou para me influenciar no júri. Ele foi maldoso. Quis me prejudicar para usar isso no júri. Todos viram que eu pedia para eles pararem, não atirar. Se salvar vidas é um crime, então não sei o que não é. As pessoas querem se autopromover em cima do meu nome. Querem crescer. Fui o último a sair do cubículo. Eles atearam fogo lá e disseram: ou você sai ou você morre. O que você faria? Não tive outra saída.

(Com informações de Tissiane Merlak)