Esportes

O inferno astral de Allyson Felix, xodó dos EUA

Admirada dentro e fora do meio esportivo nos Estados Unidos, a californiana Allyson Felix é a queridinha da seleção de atletismo dos Estados Unidos. Aos 30 anos, ela veio aos Jogos do Rio com o objetivo de conquistar seu quinto título olímpico, o que a tornará a mulher com mais medalhas de ouro na história dos Jogos. Seu recorde individual mobiliza a delegação americana a tal ponto que a US Track and Field (a associação americana de atletismo) ter conseguido, em janeiro, após intensa pressão, que a IAAF (a federação internacional de atletismo) mudasse o calendário de provas já divulgado só para atender a velocista. A ?Lei Allyson Felix? fez com que as eliminatórias dos 200m, da qual ela é campeã olímpica (2012), fossem antecipadas da noite para a manhã da última segunda-feira, de modo a aumentar o intervalo para a prova dos 400m, da qual é campeã mundial. Links atletismo

Embora seja considerada a melhor do mundo nas duas distâncias, uma sucessão incrível de reveses está fazendo com que Felix ainda não tenha podido celebrar seu quinto ouro. Vindo de problemas no joelho, ela ficou em quarto lugar na seletiva americana para os 200m, perdendo a vaga nos Jogos do Rio por apenas 0s01 (um centésimo de segundo). A mudança no calendário feita sob medida para ela, portanto, mostrou-se inócua, mas ninguém tinha dúvida de que o almejado quinto ouro viria na noite da última segunda-feira, na final dos 400m.

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E aí veio nova derrota, ainda mais surpreendente. Felix começou atrás, mas tomou a ponta na reta final e liderava no 399º metro. Vitória garantida até que Shaunae Miller, de Bahamas, deu o já famoso ?peixinho? na pista do Engenhão para levar a vitória, o ouro e o recorde pessoal da americana. O fracasso nas duas provas individuais em que tinha favoritismo, e de forma tão inusitada, abalou a estrela americana. Após o choque de ver, apenas quando o placar do Engenhão anunciou, que havia perdido daquela maneira, ela desabafou.

? Eu me sinto totalmente sugada emocional e fisicamente neste momento. Sou uma competidora, eu corri para vencer, fiz o que precisava. É apenas dor e decepção. Nem acredito que estou tendo um ano tão difícil ? disse Felix, porém sem perder a esportiva, evitando reclamar do ?peixinho? da adversária. ? Não é algo usual, mas acontece aqui e ali.

HAJA SAL GROSSO

Restam ainda os revezamentos, que lhe deram em Jogos passados três de seus quatro ouros. Ela é a principal velocista do time americano do 4x400m e, talvez para ajudá-la a atingir seu quinto ouro, a comissão técnica americana decidiu incluí-la no time do 4x100m, o que era apontado como improvável pela imprensa do país. Mal sabiam que se abria ali a oportunidade para o imponderável dar novamente o ar de sua graça pelas mãos de Allyson Felix.

Ela errou a passagem de bastão para English Gardner, o que fez o time americano chegar em último na eliminatória, fora da final. Logo depois da prova, veio a primeira boa notícia em meses para Allyson Felix: a organização dos Jogos considerou que ela foi atrapalhada pela brasileira Kauiza Venância. As americanas tiveram nova chance e correm a final de desta sexta-feira.

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Os percalços, com boa dose de má sorte, que a estrela americana vem tendo nos últimos meses fizeram crescer a torcida por ela nos Estados Undos, onde goza de grande prestígio. Cristã, filha de professores, Felix é frequentemente contratada para protagonizar campanha publicitárias e de mobilização da sociedade. Costuma ser descrita na imprensa do país como ?elegante? e ?discreta?. Em uma reportagem sobre os americanos nos Jogos do Rio, o ?New York Times? afirmou que ela sempre pairou acima das denúncias de doping no esporte, mancha que já atingiu outras superestrelas do país, como o velocista Justin Gatlin, duas vezes punido por uso de substâncias proibidas.

Ao contrário, Felix é a garota-propaganda do ?Project Believe?, programa antidoping patrocinado pela Comitê Olímpico dos Estados Unidos e tem, até prova em contrário, a imagem imaculada neste quesito. E nos outros também, desde que surgiu como menina-prodígio das pistas, há cerca de 13 anos. Em 2003, ainda com 17 anos, ela conseguiu, num torneio do México, o recorde mundial sub-20 dos 200m, mas a marca não foi reconhecida internacionalmente porque o evento não tinha testes antidoping, o que impede a validação dos tempos pela IAAF.

Naquele mesmo 2003, foi eleita a ?atleta do ano? entre os secundaristas dos Estados Unidos, e, com apenas 18 anos em Atenas-2004, foi medalha de prata nos 200m em sua precoce estreia em Jogos Olímpicos. Ao sair da high school, ainda antes de entrar na faculdade, ganhou um milionário contrato de exclusividade da Adidas. Aos 19, foi a campeã mundial dos 200m mais jovem de todos os tempos. Já com uma vida de velocista profissional, disputando competições em todo o mundo e ganhando muito dinheiro, ela não precisava, e talvez nem conseguisse, mas fez questão de fazer faculdade.

HUMILDADE E SONHO DE SER PROFESSORA

Seguindo o exemplo dos pais, cursou pedagogia e se formou em apenas quatro anos e meio. Durante toda a carreira, sempre afirmou que tem o sonho de, ao se aposentar, tornar-se professora de educação infantil como sua mãe, o que só faz aumentar a imagem de boa moça e a admiração que provoca nos americanos.

Depois de dominar por mais de dez anos os 200m (tricampeã mundial, um ouro e duas pratas olímpicas), ela deve passar a correr apenas os 400m, em que a intensidade é um pouco menor, após os Jogos do Rio. Estreou na nova distância com o título mundial no ano passado, mas na Olimpíada sucumbiu ao peixinho de Miller no último metro.

A dor desta derrota não a deixou festejar um recorde obtido com a prata. Foi a sétima medalha olímpica de Felix, algo só atingido entre mulheres no atletismo pela americana Jackie-Joyner Kersee, que foi sua treinadora no começo da carreira. Atualmente, Felix é treinada pelo marido de Jackie-Joyner, Bob Kersee.

? Não penso em recordes quando vou competir. Jackie-Joyne é uma deusa do esporte. Ela foi uma pessoa espetacular na minha vida. Todas as suas seis medalhas foram individuais, ela nunca participou de revezamentos. Jamais estarei à sua altura. Jackie é uma mentora e uma grande amiga ? comentou Allyson Felix, na habitual humildade que a ajuda a se manter como a xodó americana. Conheça todas as provas do atletismo