Esportes

Nos Jogos de 2004, atrasos nas obras e toda tensão pós 11/9

59534926_Athens 2004 OG Swimming 200m butterfly Men - Semifinal Michael PHELPS USA 1st..jpgPara quem teme que as coisas no Rio andem por demais periclitantes, vale relembrar que em Atenas, até a véspera da festa de abertura dos XXVIII Jogos, em 2004, a tragédia parecia ainda mais iminente, o perigo, mais real, e o caos, mais provável. Nunca a etimologia grega das palavras ?catástrofe? e ?crise? soou tão pertinente. A Grécia era o menor país a acolher uma Olimpíada desde os Jogos de 1952, na Finlândia, e os riscos e desafios embutidos na escolha foram evidentes desde o início. Para a nação, tratava-se de demonstrar sua capacidade em organizar um evento dessa magnitude sem enredar-se num novelo de bagunça, desperdício, ineficácia, corrupção e esbanjamento de dinheiro público.

Para o Comitê Olímpico Internacional foi uma prova de serenidade radical: como não surtar diante do acúmulo de crises. Embora dois terços das instalações já estivessem prontos quando a cidade foi eleita em 1997, exigindo apenas trabalho de renovação, um total de 11 arenas foram consideradas incompletas na ultimíssima visita dos inspetores do COI antes da abertura. Durou anos e não deixou saudades o pugilato a portas fechadas entre a entidade e os organizadores, com direito a ultimatos e ameaças de mover o evento todo, de emergência, para Barcelona ou Seul. Dorrit Harazim, a série – parte II

Entre outros, a construção de um teto para o Centro Aquático fora suspensa quando a empresa responsável pela obra admitiu não poder concluí-la, gerando previsões de insolação generalizada nas arquibancadas. Por via das dúvidas a equipe australiana de natação trouxera na bagagem coletes refrigerados que, segundo o técnico Leigh Nugent, reduziriam a tensão nervosa provocada por temperaturas beirando os 40 graus.

Mas o pesadelo maior se concentrava em outro teto, o do Estádio Olímpico Spyridon Louis, nome do vencedor da primeira maratona olímpica dos tempos modernos. A cinco meses do início dos Jogos a Grécia elegera um governo conservador, encerrando uma década de poder socialista, o que esfarelou a relativa união partidária de apoio ao evento. Uma pesquisa Gallup realizada na época revelou que os gregos eram a segunda nação mais pessimista do mundo, depois da Eslováquia. A população sentia-se inferiorizada por constar como lanterninha entre nações da União Europeia em telecomunicações, transportes, construções modernas, qualidade do ar e oportunidades.

É onde entra o arquiteto Santiago Calatrava, contratado para fazer a cobertura do já existente estádio olímpico, formada por painéis de vidro sintético e dois arcos de 300m de aço, sustentados por apenas quatro pontos e que alcançavam 80m no seu ponto mais alto. O projeto foi considerado um desafio de engenharia quase intransponível e custou a fábula de ?130 milhões. Quase foi a pique no prazo. Foi entregue só na 25ª hora, a três semanas da cerimônia de abertura. O atraso representou um quase colapso na instalação dos equipamentos de segurança da arena.

38771281_An unidentified man grabs Vanderlei Lima of Brazil during the Men%27s Marathon event at the 2.jpgA segurança desta primeira Olimpíada após os atentados terroristas do 11 de Setembro prenunciava o apocalipse. A duas semanas do início, uma operação conjunta dos exércitos americano e grego simulou sequestros de navios e explosões de artefatos nucleares caseiros. Aviões de alerta antecipado (AWACs) e navios da Otan foram deslocados para a proteção do litoral e das mais de 1.500 ilhas do país, enquanto especialistas dos Estados Unidos em guerra bacteriológica e química treinavam várias equipes de médicos e 1.500 câmeras de vídeo eram montadas nas instalações olímpicas e ruas adjacentes.

Mesmo assim, na noite do terceiro dia de competição, um descolado turista canadense conseguiu chegar até o trampolim de 3 metros onde se realizava a final de salto sincronizado e deu seu mergulho para a fama. Vestia um saiote azul de bailarina e collant branco. Ninguém sabe como conseguiu driblar a segurança. A dupla de atletas chineses Peng Bo e Wang Kenan, que liderava a competição e cuja apresentação foi precedida pela irrupção do bailarino peludo, jamais recuperou a concentração e terminou na última colocação.

Nas Vilas de Mídia, onde vigorava com rigor a proibição a facas e garfos pontiagudos, os mais de 20 mil credenciados foram obrigados a aprender a usar talheres de madeira compensada porosa, o que tornava a comida ainda mais indigesta. Em Creta, local escolhido pelos Estados Unidos para treinamento da equipe, 45 agentes especiais, 24 deles com porte de armas, protegiam os esportistas antes do seu desembarque final em Atenas.

Era tudo tão maluco que, faltando um mês para o início, Bill Rathburn, chefe da segurança dos Jogos de Los Angeles-1984 e Atlanta-1996, recomendava a seus patrícios que ficassem em casa. ?Se eu fosse, iria sem minha mulher?, aconselhou.

Pois não aconteceu nenhuma das hecatombes temidas. Com um guarda-chuva de mísseis Patriot, Stinger e Hawk, que felizmente não precisaram ser acionados, as competições, uma vez iniciadas, tomaram conta de Atenas. E os atletas assumiram seu protagonismo.

Entre as 201 nações a disputar 301 medalhas em 34 esportes, o Brasil fez bonito. Foram 247 esportistas (125 homens, 122 mulheres) que conquistaram, 5 ouros, 2 pratas, 3 bronzes. O país competiu em 29 esportes e obteve a 16ª colocação, a melhor no quadro geral de pódios até então. De quebra, apos um longo hiato de quase meio século, tínhamos dois novos bicampeões olímpicos em provas individuais ? o último fora Adhemar Ferreira da Silva, ouro no salto triplo em 1952 e 1956.

Desta vez os louros vieram das águas mornas do Mediterrâneo: o iatista paulista Robert Scheidt, bicampeão olímpico consecutivo na classe Laser, e os veteranos cariocas Torben Grael e Marcelo Ferreira, na Star, fizeram a festa. Além deles, a dupla de vôlei de praia Ricardo Santos/Emanuel Rego, o time de vôlei de quadra masculino, e o ouro que caiu tardiamente no pescoço do cavaleiro Rodrigo Pessoa, segundo lugar no salto individual. O caso arrastou-se por um ano, até ficar provado que o vencedor da prova havia dopado o cavalo com o qual competira com sedativos banidos.

Para o Brasil, o último dos 14 dias de competições foi o mais eletrizante. Num espaço de poucas horas passou-se da euforia absoluta na quadra de vôlei a espasmos de agonia com final feliz na maratona. Atenas premiava todo campeão com uma coroa de ramo de oliveira. Depois da de Nalbert escorregar pela sua careca, a de Giba ter-se enroscado nos seus bigodes de corsário, a de André ter se assentado na sua cabeleira loira e a de Bernardinho ficar associada à história do técnico, uma delas foi parar na cabeça de um brasileirinho miúdo de Cruzeiro do Oeste, na Paraíba.

Vanderlei Cordeiro de Lima estava à frente dos 102 maratonistas que disputavam a última e mais tradicional prova olímpica. Sua arrancada parecia coisa de amador ou de ?coelho?, papel reservado aos puxadores de velocidade em corridas.

Mas como continuasse liderando a prova até perto da marca dos 36km, o Brasil passou a acreditar que também sairia vencedor. Foi então que um manifestante irlandês invadiu a pista e empurrou o brasileiro.

Foi tudo tão inesperado, rápido e absurdo que Vanderlei não teve reação. Assustado, perdeu o chão. Mas foi ajudado por um torcedor grego, reencontrou equilíbrio e prosseguiu.

E foi com o já lendário sorriso escancarado que entrou no estádio Panathinaikos fazendo aviãozinho com os braços e formando coração com as mãos. Ovação geral das arquibancadas em pé. Chegara em terceiro lugar.

Além do bronze, recebeu de Jacques Rogge a medalha Pierre de Coubertin por ter demonstrado ?fair play excepcional? ? não reclamou nem pediu anulação da prova. Segundo Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Juan Antonio Samaranch, o antecessor de Rogge, teria pressionado para que o COI atribuísse não um bronze, mas também um ouro a Vanderlei, dividindo o pódio com o italiano Stefano Baldini, o vencedor efetivo.

Para a ginasta Daiane dos Santos, sorriso cheio de dentes, bochechas de trompetista e olhos de jaboticaba, Atenas-2004 ficou aquém do que ela e o Brasil tanto desejavam. A bordo do choro ?Brasileirinho?, com que parecia brincar no tablado e desafiar a gravidade em 86 segundos de competição, a gaúcha era uma das grandes favoritas à medalha entre as 98 atletas na prova de solo.

Mas foi a primeira a competir, o que nunca é bom. O público ainda estava frio, distraído. E não era o dia de Daiane. Até o ?Brasileirinho? soou estranho, de uma alegria forçada, quando normalmente suscita uma adesão quase infantil do público. À primeira falta de sua ginasta-estrela, o temido técnico ucraniano Oleg Ostapenko voltou as costas para o tablado. ?Fez erro na primeira linha e erro na segunda linha, então acabou?, diria depois em seu português essencial. Daiane ficara em quinto lugar.

Na gangorra entre potências esportivas que emula de certa forma a geopolítica mundial, Atenas serviu de amostra do que estava por vir. Pela 1ª vez desde sua estreia plena nos Jogos, em 1984, a China conquistou ouro em atletismo. De punho erguido no pódio, Xiang Liu não só vencera os 110m com barreiras, como batera o recorde olímpico e igualara o mundial.

?Será muito difícil, mas vamos tentar ultrapassar os Estados Unidos nos Jogos de 2008, em Pequim, informava o secretário geral do Comitê Olímpico Chinês, prenunciando o grande duelo que ocorreria na capital chinesa quatro anos mais tarde. Na mesma noite, uma chinesinha de 20 anos deu um bote totalmente inesperado em três fundistas etíopes e venceu a prova dos 10 mil metros sem demonstrar qualquer cansaço. Xing Huina conquistava a 27ª medalha de ouro para o país. No cômputo final, os Estados Unidos voltaram para casa com 36 ouros, a China com 32 e a Rússia, em terceiro, com 28.

Duro mesmo para o torcedor americano foi assistir à humilhante derrota do time de basquete masculino (leia-se NBA), e logo na estreia, contra a seleção de Porto Rico. Os Estados Unidos estavam tão habituados a se considerar imbatíveis desde Barcelona-1992 que a derrota por 92 a 73 foi um choque. Ou um deleite para o mundo.

Mas a derrota é explicável e poderá se repetir agora no Rio. É que tanto para os jogadores como para os times, a temporada da NBA é infinitamente mais importante e rentável do que o ouro olímpico. Ademais, os atletas estão em férias e recuperação do extenuante calendário da NBA. Sem Shaquille O?Neal, Kobe Bryant e Kevin Garnett, o time ficou vulnerável. O ouro ficou com a Argentina, a prata com a Itália.

Para o espigão anfíbio de 19 anos chamado Michael Phelps, ao contrário, Atenas era tudo. Equipado com braços que na piscina viram hélices e um torso anormalmente aerodinâmico, o nadador chegara precedido de uma aposta de marketing que eletrizou meio mundo: embolsaria US$ 1 milhão da Adidas se conseguisse vencer sete provas numa mesma Olimpíada, igualando o feito de Mark Spitz de Munique-1972. Foi por pouco. Phelps competiu 17 vezes em sete dias, conquistou seis ouros e dois bronzes, e entrou para a história da natação como um multitalento ímpar. Quatro anos antes, em Sydney, competira como adolescente anônimo de 15 anos, feliz com um quinto lugar nos 200m borboleta.

Estrelas que despencam do Olimpo e se estatelam perante um estádio lotado podem causar sensação tão intensa quanto o espetáculo de vitórias hercúleas. A implosão da americana Marion Jones, a rainha maior do atletismo, foi brutal.

Ela saíra de Sydney com três ouros e dois bronzes, fora capa de todas as revistas e musa dos publicitários, por bela, estilosa e bem-falante. Segundo John Capriotti, do marketing da Nike, jamais a empresa investira tanto em um atleta desde Michael Jordan. Melhor nos 100m, nos 200m e no salto em distância, ela era uma gazela das pistas. Contava disputar cinco ouros na Grécia.

Mas, enredada num gigantesco escândalo de doping, desembarcou em Atenas como sombra pálida do que fora. Tinha conseguido classificar-se apenas para o salto em distância, sua prova mais fraca. E, de última hora, a uma vaga no revezamento 4×100, que os Estados Unidos não perdiam há três décadas. Chegou em quinto lugar no salto e sequer conseguiu passar o bastão no revezamento, desclassificando sua equipe.

Quatro anos depois, após admitir culpa e pedir desculpas públicas, Jones foi condenada a seis meses de prisão por envolvimento em fraude financeira ligada ao esquema de doping. As cinco medalhas de Sydney já lhe haviam sido retiradas.

Nesta Olimpíada, eu mesma virei atleta de uma prova de resistência fora do programa oficial. Ela começou na manhã do domingo 15 de agosto, comigo a postos no Olympic Indoor Hall, onde se realizava a demorada série classificatória de ginástica artística. Eu saíra cedo da Vila de Mídia com tênis, boné, calça e camiseta extraleves para o vento saariano, mais agasalho para ambientes fechados. Na mochila, além da tralha habitual, um bilhete aéreo Atenas/Nova York/Atenas.59534923_Athens 2004 OG Beach volleyball Women - Medal Ceremony Misty MAY USA 1st Adriana BEHAR BRA.jpg

Passei a manhã com um olho nas disputas de solo, salto sobre cavalo, trave e barras assimétricas, e outro no relógio para não perder o voo que sairia às 12h30 do aeroporto Eleftherios Venizelos. Com o fuso horário a meu favor, desembarquei em Nova York no meio da tarde do mesmo dia, apesar de a travessia ter durado mais de dez horas. À minha espera no saguão do JFK, um pouco ansiosa, estava minha filha com uma malinha de mão. Faltavam poucas horas para sua formatura de doutora em Fisioterapia pela New York University, e ela fora me levar uma muda de roupa formal, adereços inclusos, para eu usar na cerimônia. Saiu correndo para não ser ela a chegar atrasada ao evento e nos despedimos no banheiro do aeroporto.

Levei algum tempo para sair de lá menos amarfanhada do que entrei, peguei um táxi e cheguei a Manhattan. Mas deu tudo certo. Ou quase. Vestida a caráter, adentrei o salão nobre da formatura calçando um inexplicável par de tênis ? o mesmo de Atenas. Tínhamos nos esquecido desse item na minha transmutação de repórter em mãe.

Na recepção após a cerimônia, meu par de tênis foi considerado heroico, e na manhã seguinte fiz o caminho inverso. Mais dez horas de vôo sem perder nenhuma final com participação de brasileiros, nem as lutas em que Flavio Canto e Leandro Guilheiro conquistaram medalhas de bronze. Na tarde da terça-feira, 16 de agosto, quando o Brasil festejou com os dois judocas no tatame, eu já estava de volta. Sem fôlego, mas cheguei.

No fim, não houve atentados e nenhum teto ruiu. Atenas ganhou um metrô e um aeroporto modernos, vários elefantes brancos e uma dívida que muitas gerações de gregos ainda serão convocados a saldar. Quando seu prefeito passou o bastão no encerramento, Pequim já tinha todas as instalações olímpicas prontas. Em ditaduras, é fácil.