Cotidiano

Militares dos EUA ensinam inglês a desertores norte-coreanos

SEUL ? O capitão John Ellerbe conta que, quando se apresentou à sua classe, no ano passado, uma das estudantes parecia não acreditar no que estava vendo. “Ela disse que nunca tinha visto um soldado americano antes. Na Coreia do Norte o pessoal ouve dizer que somos assassinos de bebês e queremos acabar com todos eles”, afirma, acrescentando que a mulher ficou embasbacada com sua atitude simpática. Os alunos do militar são desertores norte-coreanos que hoje vivem no Sul, fazendo o que inúmeros jovens sul-coreanos fazem para ter uma chance na vida: aprendendo inglês. E, ao conhecerem Ellerbe e outros voluntários da principal base dos EUA em Seul, tiveram outra lição.

“Quando soube que teria que estudar inglês com os soldados americanos, tive dificuldade em aceitar o fato e fiquei apavorada. Isso porque, quando vivia na Coreia do Norte, aprendi que eles eram nossos piores inimigos”, recitava Oh, 23 anos, em um inglês hesitante, a composição que tinha escrito em uma aula recente.

A descrição é, no mínimo, contida. (Oh pediu que seu nome completo não fosse revelado para proteger os parentes que ainda estão no Norte, onde o governo pune as famílias dos desertores.)

A partir do jardim de infância, os norte-coreanos são bombardeados com a litania governamental, cuja principal intenção é instilar medo e ódio dos EUA, especialmente dos soldados. As tropas fazem treinamentos armados usando modelos de militares norte-americanos como alvos. São mais de mil desertores a pedir asilo no Sul todo ano ? e eles contam que uma das atividades escolares mais comuns é fazer as crianças baterem em um boneco representando um soldado norte-americano com pedaços de pau.

Essa lavagem cerebral é reprogramada com duas horas, todos os sábados, de aula de inglês no sul de Seul, quando voluntários como Ellerbe, ao lado de militares sul-coreanos que dominam o idioma, ensinam mais de vinte desertores cujas idades variam dos vinte e poucos aos 50. O programa tem o apoio da Fundação Korea Hana, organização que recebe verba do governo federal para ajudar os nortistas a se adaptarem à nova vida.

“É também uma maneira de reforçar nossa aliança com os sul-coreanos”, diz a Coronel Maria Eoff, comandante da Guarnição Yonsan do Exército dos EUA, no centro de Seul, onde Ellerbe e outros professores estão baseados.

Choi Hyun-joon, que chegou ao Sul em 2008 e hoje lidera uma organização de desertores, a Unification Future Solidarity, conta que teve a ideia do curso depois de se reunir com militares norte-americanos para discutir suas experiências no Ministério de Segurança de Estado, a polícia secreta norte-coreana.

Uma das responsabilidades do órgão é impedir a influência estrangeira de chegar ao cidadão comum, como filmes e publicações de língua inglesa. Agora, Choi está fazendo o contrário. (Sua organização é quem oferece espaço para as aulas.) Ele conta que a notícia das aulas já chegou ao Norte, através das conversas que alguns estudantes mantêm com familiares e amigos.

“Ninguém consegue acreditar”, diz Choi.NKOREA_DEFECTORS_ENGLISH_3.jpg

Segundo especialistas no país isolado, o governo usa o espectro da ameaça constante dos norte-americanos sobre a população para justificar seu autoritarismo. A doutrina se baseia principalmente nas lembranças da Guerra da Coreia, ocorrida entre 1950-53, quando os bombardeiros dos EUA destruíram grande parte da região. Por causa disso, as autoridades aproveitam para acusar os soldados daquele país de praticar atos grotescos de violência contra civis.

Em 2014, o líder Kim Jong-un chamou os soldados dos EUA de “canibais” durante visita ao Museu Sinchon de Atrocidades Norte-Americanas, ao sul de Pyongyang, que mostra o que o governo afirma ser a matança de milhares de civis promovida pela potência mundial e seus “cachorros de estimação”, ou seja, os sul-coreanos. As instalações foram reformadas e hoje apresentam versões ainda mais extremas da violência de que os “lobos imperialistas” são acusados de ter cometido, no final da década de 50. (Os historiadores dizem que a maior parte da matança na cidade de Sinchon e arredores foi perpetrada por milícias coreanas anti-comunismo; entretanto, as forças que defendiam o regime também são responsáveis por atrocidades ignoradas pelo governo local.)

Ironicamente, um dos desejos mais comuns a todos os desertores que se estabelecem no Sul é aprender inglês, a língua dos arquiinimigos da terra natal. Depois de mais de 70 anos de separação, as duas versões do idioma coreano são bastante diferentes, sendo que a do Sul adotou várias palavras inglesas. “Batom”, “freios”, “café” e “Americano” são novidades para os nortistas ? e quando eles jogam futebol com o pessoal do Sul, o caos linguístico é inevitável.

As escolas norte-coreanas oferecem cursos de inglês, chinês e russo a partir do quarto ano. “Mas ninguém tem vontade de aprender um idioma estrangeiro que nunca vai usar”, relata Chung Kyong-hee, 53 anos.

Recentemente, em uma aula para iniciantes, ela e várias outras mulheres de meia-idade copiavam cuidadosamente palavras como “aeroporto”, “bagagem” e “ponto de ônibus” em seus cadernos. E riram quando se depararam com uma das poucas que conheciam: “dinheiro”. “Quanto custa isso?”, repetiam depois de Seo Young-wook, soldado sul-coreano de Yongnam.

As aulas não deixam de ser educativas também para os norte-americanos, dando-lhes a chance de conhecer pessoas comuns da Coreia do Norte, país que foram treinados a combater.

“É bom também porque reaprendemos o inglês como deve ser falado, sem todas as gírias que normalmente usamos”, conclui Ellerbe.