Reportagem: Juliet Manfrin 

Há anos o produtor rural precisou se transformar em empreendedor do campo para se manter nele. Quem não o fez, enfrenta dificuldades, perde dinheiro ou até já deixou a atividade. Mas nem mesmo para os que se profissionalizaram tem sido fácil entender a dinâmica da composição de preços das commodities e decidir a melhor hora para vender. Isso justifica os estoques bem elevados. Na região, mês passado, ainda havia cerca de 1,5 milhão de toneladas da última safra estocada.

O sobe e desce do mercado financeiro tem flutuado tanto que num dia o que impacta nos preços é a guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, no outro é a política econômica interna, depois vêm os estoques mundiais regulados, a China consumindo menos por problemas sanitários, as perdas da safra norte-americana, a instabilidade do dólar, e, um dos mais recentes, o risco de uma recessão global com a desaceleração da economia alemã e a dos Estados Unidos.

A situação piora quando isso tudo aparece junto, não dando tempo para o mercado se recuperar.

Segundo o economista Luiz Elieser Ferreira, do Sistema Faep, fica mesmo difícil acompanhar o mercado e tomar as decisões. Por isso a palavra-chave está sendo cautela, mais uma vez, tanto para quem está focado nos contratos de venda futura quanto para quem tem soja da safra 18/19 ainda guardada. E olha que não é pouca coisa. No mesmo período em 2018 algo próximo a 76% do que havia sido colhido no Estado – de um total de 19,6 milhões de toneladas – já haviam sido vendidos. Agora, esse percentual não chega a 65% de uma colheita de 16,2 milhões de toneladas.

Essa cautela ganha uma pitada extra porque os produtores estão às vésperas de iniciar o plantio da oleaginosa, o que no oeste deve ocorrer já nos próximos dez dias, caso as condições climáticas contribuam.

Quanto aos contratos de venda futura, o economista lembra que ainda não há formação de preços para os cereais a serem embarcados em fevereiro ou março de 2020, mas a expectativa é para que eles girem em torno de R$ 76 a saca, colocada no porto, valor idêntico ao que está sendo pago para os contratos com cumprimento em novembro deste ano.

Na região oeste, onde está o maior cultivo da oleaginosa do Paraná com destaque para a regional de Toledo, serão quase 1,1 milhão de hectares que prometem produzir até 4 milhões de toneladas.

Porém, ainda não há percentuais de fechamento de contratos para a colheita do ciclo que está prestes a se iniciar. Influenciadas pelo mercado, as vendas só devem começar na primeira quinzena de setembro.

A instabilidade também provoca apreensão sobre a cotação do grão. No último ano, ele caiu cerca de 10%.

Vendendo mais

A boa notícia é que aos poucos as vendas antecipadas estão caindo no gosto dos produtores paranaenses. Em 2017, eles haviam vendido apenas 7% da soja antecipada. No ano passado foram 15%. Desta vez, com tudo o que o mercado tem passado, a tendência não é de aumento muito além dessa marca. “Acreditamos que possa manter os 15% de 2018, o que já é um avanço”, destacou o economista Luiz Eliezer Ferreira.

Plantio em poucos dias

Os produtores se preparam para o início do cultivo em alguns dias. Para que isso ocorra, os sojicultores esperam a chuva, que praticamente não deu as caras nos últimos dois meses.

E a previsão não é muito animadora. Como faz mais de um mês que não chove, seriam necessários pelo menos 30 milímetros de precipitação para que a terra pudesse receber as sementes. Segundo o Simepar, não há previsão de chuva até o dia 4 de setembro para o oeste. Só não estão descartadas pancadas isoladas.

Além da secura, vem um veranico por aí. A partir do dia 1º de setembro as temperaturas passam dos 30ºC em todo o oeste, antes mesmo de a primavera começar. A mínima não deve ser inferior aos 20ºC a partir de então.

Período para plantar

Acostumados a cultivar variedades precoces, a maior parte dos produtores da região costuma plantar soja entre os últimos dias de agosto e os primeiros dias de setembro de modo que, assim que o vazio sanitário chegue ao fim, no dia 10 de setembro, as plantas possam emergir. Esse ciclo mais antecipado é pensado já no plantio da safrinha de milho, lá em janeiro e fevereiro, diminuindo os riscos de interferências climáticas nas chamadas lavouras de inverno.

Na safra de verão passada, o oeste registrou perdas expressivas de soja. A estiagem provocou reduções volumosas, sobretudo na regional de Toledo, onde houve 40% de quebra. Já na regional de Cascavel, a quebra foi de 15%, e, somadas, as regionais deixaram de colher mais de 1 milhão de toneladas. Prejuízos que os produtores torcem para que não se repitam.

O gerente da indústria de esmagamento de soja da Diplomata, Renato Dallago, conta que os contratos já deveriam ter começado a rodar, mas o que se vê é uma paradeira nas negociações. “Nem o que está estocado os produtores estão vendendo porque acham que o preço pode melhorar”, explica.

A falta de cultura da venda antecipada em larga escala no Estado se justifica, segundo Dallago, pela capitalização dos produtores locais. “Por aqui, os produtores são capitalizados, por isso vendem pouco antecipadamente, mas, neste momento, não tem nada vendido, nos outros anos os contratos eram firmados quando os produtores compravam os insumos”, completou.

A expectativa é de que isso comece a ocorrer assim que o cultivo da soja tiver início.