Há quase meio século Paraná luta para vencer a aftosa

Para que o Estado se torne livre da doença, primeiro precisa resolver um impasse entre os produtores

De um lado, grupos ligados ao setor produtivo estão entusiasmados pelo status de área livre de aftosa sem vacinação no Paraná. De outro, um grupo de pecuaristas das regiões norte e noroeste considera que a antecipação é um erro e defende que se permaneça no Bloco V do Pnafea (Programa Nacional de Erradicação da Febre Aftosa), com Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, onde a imunização só será retirada em 2021.

A queda de braço não deverá mudar a condição já acenada pelo Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), que no dia 30 de setembro deverá publicar a certificação. Mas, antes disso, ainda existe um caminho a ser percorrido. Ele não chega a causar extrema preocupação aos defensores do livre status, mas é preciso ficar em alerta.

Segundo o presidente do POD (Programa Oeste em Desenvolvimento), Danilo Vendruscullo, o governo do Estado precisa cumprir com algumas medidas apontadas nas duas auditorias do Ministério no ano passado. A principal delas é a contratação de 30 médicos-veterinários para os postos de fiscalização, situação que ainda não saiu do papel.

No dia 18 deste mês o POD tem uma reunião ordinária e o assunto será tratado. Esse tema é uma das 21 metas do Programa. “Esse status é extremamente benéfico para todo o Paraná, para toda a cadeia produtiva. Precisamos dele”, assevera.

No oeste, onde está quase um quarto do VBP (Valor Bruto da Produção Agropecuária) paranaense, alcançando em 2018 R$ 20,4 bilhões de um total de R$ 89,6 bilhões no Estado, o entendimento de líderes é de que esse é um caminho sem volta.

Em avaliações prévias defendidas por alguns segmentos, estima-se que o incremento à economia, por ano, será de R$ 1,5 bilhão com o novo status.

Para o presidente da Comissão Técnica de Bovinocultura de Leite da Faep (Federação de Agricultura do Estado do Paraná), Ronei Volpi, ainda é difícil dimensionar com precisão o que o status possibilitará em ganhos financeiros, mas ele explica que há pelo menos quatro décadas o dever de casa está sendo feito, para que, enfim, o Paraná seja considerado livre da doença e sem vacinação. “Seguindo o cronograma, em setembro o Mapa declara o Paraná livre da doença sem vacinação, em 2020 se faz uma avaliação da sorologia para avaliar a presença viral. Se o vírus não for detectado, em setembro do ano que vem o processo é encaminhado à OIE [Organização Mundial da Saúde Animal] para que em maio de 2021, na assembleia geral, o Paraná seja reconhecido livre da doença e sem vacinação para os organismos internacionais”, listou.

Para Ronei, os reflexos disso serão imediatos: “Em 2017 o Paraná exportou 107 mil toneladas de carne suína. Santa Catarina [único estado brasileiro livre da doença e sem vacinação], que tem um rebanho menor que o nosso, exportou 380 mil toneladas. O que se exporta da bovinocultura no Paraná não é tão expressivo, mas com o status alcançaremos mercados mais nobres porque ele nos torna mundialmente um ponto de referência em um sistema de defesa sanitário, ele nos garante um certificado de excelência”, reforçou.

Resistência de pecuaristas

Quanto ao que chamou de “resistência” do grupo de pecuaristas do norte e do noroeste do Estado, que a partir da área livre da doença sem vacinação não poderão mais transportar animais de outros estados, Ronei Volpi se diz indignado: “Fico indignado porque há mais de 40 anos se tenta eliminar a vacinação no Paraná. É um intenso trabalho que vem sendo feito há pelo menos 20 anos, mas sempre tem um motivo de protelamento. Para se ter ideia, esses produtores importaram 100 mil animais para o Paraná, o que representa pouco mais de 1% do nosso rebanho bovino. Na consulta de dados, observa-se que foram apenas 40 CPFs, ou seja, 40 produtores que querem dificultar o progresso e a evolução do agronegócio, de um segmento que representa bilhões em receita em milhares de propriedades que serão beneficiadas. Isso é impressionante!”

Segundo o especialista, o que não se leva em consideração na Instrução Normativa do Mapa sobre a antecipação do cronograma é que qualquer estado poderia solicitar a antecipação do fim da vacinação, desde que se tenham condições sanitárias para isso. “O Paraná passou por duas auditorias no ano passado e foi muito bem avaliado”, completou, ao destacar que, com as condições sanitárias superadas, agora a tramitação final depende de atos políticos, como o aceno em definitivo do Estado e o decreto do Mapa.

Como os segmentos podem ser beneficiados

Em artigo divulgado nesta semana, o presidente do Sincoopar Oeste (Sindicato das Cooperativas Agrícolas, Agropecuárias e Agroindustriais da Região Oeste do  Paraná), Dilvo Grolli, reforçou que o Brasil tem “rebanho de 217,2 milhões de cabeças de gado e o Paraná de 9,2 milhões. A produção de carne do Brasil é de 11 milhões de toneladas por ano e o Paraná responde por 500 mil toneladas/ano. Com status sanitário de área livre de febre aftosa sem vacinação, os pecuaristas do nosso estado terão ganho de R$ 500 milhões ao ano pelo melhor preço da arroba”.

A perspectiva é para que o setor leiteiro, representando por 70 mil produtores, também seja diretamente beneficiado, tendo em vista que respondem por 14,5% da produção brasileira com 5 bilhões de litros por ano e, no caso da abertura das exportações dos lácteos no Estado, o ganho por litro seria de R$ 0,10 com uma injeção de R$ 500 milhões na atividade.

“O Paraná é o segundo maior produtor nacional de carne suína, com 20% do total. A produção brasileira é de 3,8 milhões de toneladas e o Paraná produz 700 mil toneladas. Se exportarmos 20% disso, os ganhos para a suinocultura chegarão a R$ 500 milhões. Com maior conhecimento do mercado sobre os nossos produtos, com boa organização sanitária e com status sanitário de livre de aftosa sem vacinação, inicia-se uma nova etapa para o agronegócio estadual”, diz Grolli.

“Para alguns pecuaristas que questionam o fim da vacinação, mas que concordam que o ideal é deixar de vacinar o gado, é importante ressaltar o ponto central da questão, que é o ganho de toda a cadeia que chegará a R$ 1,5 bilhão por ano. Isso é uma tendência mundial e sem volta”, considerou.

Reportagem: Juliet Manfrin 



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