Cotidiano

Em relatos, alunos da UFRJ mapeiam áreas temidas no campus do Fundão

RIO – Desde a morte do estudante Diego Vieira Machado, sábado passado, alunos da UFRJ têm descrito a rotina de medo de quem frequenta os mais de 5 quilômetros quadrados do Fundão, de lugares ermos e prédios em construção abandonados. Os relatos mapeiam algumas das áreas mais perigosas, como o entorno da Escola de Educação Física e do alojamento. Mas a apreensão se espalha por todo o campus. Uma tensão que, para alguns grupos, aumentou depois da suspeita de motivação homofóbica no assassinato de Diego e das ameaças de conservadores contra gays, negros e cotistas.

— Antes, quando estávamos em grupo, acabávamos mais confortáveis. Em festas, por exemplo, não tínhamos problemas em sair pelo campus com glitter no rosto. Agora, com as ameaças e a morte do Diego, fico com medo — diz L., de 19 anos, estudante homossexual de medicina.

Para toda a comunidade acadêmica do Fundão, continuam valendo velhas estratégias, como andar em grupos.

— Os alunos do turno da noite são os que sofrem mais, porque o Fundão é muito mal iluminado. Mesmo de dia, no entanto, é perigoso — afirma a estudante de letras Nicole Cardoso, de 23 anos, contando que nem dentro dos prédios da universidade se sente segura. — Evitamos o bloco H, onde há poucas aulas. As meninas também têm medo de ir a banheiros que ficam nos finais de corredores. Já apareceram homens nos banheiros femininos. Ficamos muito vulneráveis — diz ela, que reclama da ausência de seguranças mulheres no campus.

É justo atrás da Faculdade de Letras, um grande descampado, com um esqueleto de obras inacabadas, um dos trechos do Fundão que quase ninguém vai. Mas é as proximidades da Praia do Catalão, entre o alojamento, o canteiro de obras do BRT TransBrasil e a faculdade de Educação Física, que os estudantes mais temem.

— É uma área muito grande, com um casos de violência recentes — afirma o aluno de medicina Johnny Macruz, de 22 anos.

Com uma pista de corrida e quadras de basquete perto, o lugar costuma ser frequentado por estudantes, trabalhadores do Fundão e moradores de regiões próximas. Funcionário do Instituto de Engenharia Nuclear, dentro da Cidade Universitária, Claudio Reis de Santana corre por ali na hora do almoço. Mas diz que não faria se arriscaria a praticar esportes na região em outros horários.

— Mesmo nos fins de semana, muita gente vem correr neste espaço, mas de manhã. No final de tarde, fica muito vazio. Eu não viria aqui no anoitecer — diz ele.

ATAQUES À POPULAÇÃO LGBT

Foi nesse entorno que o corpo de Diego foi encontrado, no último sábado. Foi ali também que, em abril, ele tinha denunciado que um homem teria sido espancado. Um lugar que amedronta a comunidade homossexual do Fundão, como revela uma mensagem no Facebook do coletivo de LGBT da Faculdade de Medicina.

“Nos arredores do prédio da Escola de Educação Física (…) a comunidade LGBT se vê completamente assombrada por esse ódio (…). A LGBTfobia está ceifando nossas vidas. Dentro da nossa própria universidade, estamos morrendo”, publicou.

Embora o assassinato de Diego tenha chamado a atenção agora para a homofobia dentro da universidade, os alunos já convivem com o preconceito há tempos no Fundão. Em resposta, os coletivos LGBT vêm ganhando representatividade dentro dos cursos, com apoio de outros grupos. Esta semana, o grupo Atlética, que promove a prática de esportes na Faculdade de Medicina, usava camisetas com a frase “Não é mimimi, não é vitimização, Fundão não admite discriminação”. Mas os problemas persistem.

— Já aconteceu de eu estar com minha namorada em festas da faculdade, e meninos ficarem me empurrando — conta a estudante de medicina R., de 20 anos. — Há poucos meses, no caso da pessoa humilhada perto do prédio da Educação Física, a segurança da universidade não se prontificou a ajudar. Nem vejo a segurança. É tudo muito deserto no Fundão, não tem como se sentir seguro — diz ela.

A preocupação também é dos professores. Presidente da Associação de Docentes da UFRJ (AdUFRJ), Tatiana Roque concorda com os estudantes ao dizer que quem frequenta os cursos noturnos está mais exposto aos riscos, devido à má iluminação e à escassez de seguranças. Mas aponta também perigos, por exemplo, nos estacionamentos e pontos de ônibus do Fundão, que não tem controle de acesso algum.

UFRJ PROMETE MELHORIAS

Para tentar melhorar a sensação de segurança no campus, a prefeitura universitária afirma que até o final desta semana deve concluir a instalação de 17 câmeras de segurança na área do alojamento. Segundo a UFRJ, a instalação dos equipamentos começou em maio.

“Serão 14 câmeras fixas e três capazes de gravar e transmitir imagens em 360°. Elas terão ligação direta com o Centro de Controle Operacional da UFRJ, que funciona desde 2013 e grava imagens da quase totalidade do campus. Em abril, a Residência Estudantil começou a ganhar iluminação nova, no hall de entrada e áreas do entorno”, afirma uma nota da assessoria de imprensa da reitoria.

A universidade lembra ainda que casos de violência na UFRJ podem ser comunicados à Divisão de Segurança da universidade (Diseg), no telefone 3938-1900, que recebe também ligações a cobrar. Além disso, a universidade lembra que a campanha “Não se Cale”, lançada em maior, abriu um canal de comunicação por e-mail ([email protected]) para denúncias de opressões e violências no campus. O projeto, diz a UFRJ, é focado em cinco eixos: mulheres, LGBTs, discriminação racial, trabalho e ensino.

Outro canal disponível para reclamações, sugestões e ocorrências é a Ouvidoria-Geral da UFRJ, através do e-mail [email protected], ou dos telefones 3938-1619/1620, das 9h às 16h. No site www.ouvidoria.ufrj.br também é possível registrar manifestações de forma anônima.