Cotidiano

Desert Trip: Roger Waters faz show político; The Who se compara a Adele e Bieber

INDIO (Califórnia) ? Roger Waters deixou sua opinião sobre Donald Trump e Israel bem clara durante uma performance carregada de discursos políticos na noite deste domingo, que encerrou o primeiro fim de semana do festival Desert Trip. O cantor e compositor de 73 anos também denunciou a guerra e apoiou o movimento Black Lives Matter em seu show de 2h30min.

Water atacou o candidato republicano à presidência americana com música e imagens. O rosto de Trump decorado com a palavra ?Charade? (charada) apareceu no gigantesco telão sobre o palco enquanto Waters tocava ?Pigs (Three different ones)?, do Pink Floyd. Depois, imagens do magnata com o capuz da Ku Klux Klan foram projetadas.

Enquanto isso, um enorme balão em formato de porco flutuava sobre o público. Ele tinha o rosto de Trump pintado nas laterais com as palavras ?porco ignorante, mentiroso, racista, sexista?. E, caso a mensagem ainda não estivesse clara o suficiente, letreiros gigantes iluminavam a tela com a mensagem ?Trump é um porco?.

Waters deu sequência ao show com ?Another brick the wall (Part II), em que 15 crianças subiram ao palco usando camisas em que se lia ?Derriba el muro? (derruba o muro, em português).

Enquanto outras atrações do Desert Trip também mencionaram a eleição presidencial, Waters foi o único a levantar a discussão sobre o movimento Black Lives Matter em frente a uma plateia majoritariamente branca. Quando ele tocou ?Us and them?, o telão mostrou cartazes de protestos. ?O silêncio branco é violência?, dizia um. ?Eu não acredito que ainda tenho que protestar contra isso?, criticava outro.

Waters disse ao público que tem trabalhado com soldados feridos em Washington e convidou um jovem veterano de guerra americano ? que perdeu as pernas em batalha ? para tocar guitarra com a banda em ?Shine on you crazy diamond?.

?Trabalhar com esses homens têm sido uma das coisas mais gratificantes que eu fiz na minha vida?, disse Waters. Ele dedicou a música a todas as vítimas da guerra e da violência.

O set do músico contou ainda com músicas como ?Time?, ?Money?, ?Wish you were here? e ?Dark side of the moon?.

O ex-vocalista do Pink Floyd esperou até o fim de sua apresentação para declarar mais uma vez seu apoio ao movimento palestino BDS, que incentiva boicotes e sanções contra o governo de Israel.

?Estou mandando todo o meu mais sincero amor e apoio para todos aqueles jovens em campi de universidades na Califórnia que estão defendendo seus irmãos e irmãs na Palestina e apoiando o movimento BDS?, disse ele, ?na esperança de que a gente possa encorajar o governo de Israel a encerrar a ocupação?.

Antes de encerrar o show com ?Vera? e ?Comfortably numb?, Waters disse ao público: ?Foi uma grande honra e um grande prazer estar aqui e tocar para vocês nesta noite?.

?ADELE DE 1967?

O The Who já tinha subido ao palco mais cedo e apresentado os principais hits de sua discografia em um show de cerca de duas horas (considerado ?curto? para os padrões do festival?. O vocalista Roger Daltrey sorriu e dançou com o guitarrista Pete Townshend, que brincou com o público.

?Nós amamos que vocês vieram nos ver? disse ele, dedicando ?The kids are alright? para os ?jovens? na plateia.

O setlist do The Who contou ainda com ?My generation?, com Daltrey gaguejando os vocais de maneira precisa, ?You better you bet?, ?Eminence front?, ?The acid queen? e ?Pinball wizard?.

Em certo momento da apresentação, Townshend? lembrou que ?I can see for miles? foi o primeiro hit da banda britânica nos Estados Unidos, em 1967.

?Há muito tempo atrás?, disse ele, sorrindo. ?Nós éramos a versão de 1967 da Adele ou da Lady Gaga ou da Rihanna ou do Bieber?.

Realmente, o início da conquista do The Who em solo americano já está prestes a completar 50 anos, mas os roqueiros mantém seu som clássico e suas marcas registradas: Daltrey girava o fio do microfone sempre em que não estava cantando, e Townshend exagerava com seu movimento de moinho de vento enquanto dedilhava a guitarra.

?Roger e eu estamos muito felizes de estar aqui com a nossa idade?, disse o guitarrista. ?E eu não poderia fazer isso sem Roger?.

Depois de ver Bob Dylan e os Rolling Stones na sexta-feira, Neil Young e Paul McCartney no sábado, o público avaliou o Desert Trip como um grande sucesso. Enquanto foram registrados problemas com o trânsito e os ônibus credenciados na sexta, as coisas suavizaram até o domingo, e a grande maioria dos presentes disseram que iriam ao festival de novo se o line-up agradasse.

Realizado no mesmo local em que ocorre anualmente o Coachella, no primeiro semestre, o Desert Trip mirou em um público mais velho e endinheirado do que o de outros festivais, ganhando o apelido de ?Oldchella?.

Com o mesmo line-up, o evento se repete no próximo fim de semana.