Cotidiano

China marca aniversário de Mao, mas presidente Xi não faz nenhuma menção

CHINA-MAO_PEQUIM ? O 40º aniversário da morte do fundador da China moderna, Mao Tsé-Tung, foi lembrado pela mídia estatal chinesa com artigos elogiosos, mas o próprio presidente Xi Jinping não mencionou o dia durante uma visita a uma escola. Mao, que morreu em 1976, continua sendo uma figura que provoca divisões no país.

?The Hunan Daily?, o principal jornal do Partido Comunista Chinês (PCC) na província natal de Mao, no sul da China, publicou em sua capa um texto com os dizeres ?Presidente Mao, as pessoas apreciam a sua memória?.

Já o ?Diário do Povo?, jornal oficial do PCC, exibiu uma série de fotos de Mao no microblog Weibo, juntamente com uma seleção de algumas de suas citações mais famosas e pediu às pessoas para nomear a sua favorita ? a seção de comentários, no entanto, foi desativada.

Xi, no entanto, não fez nenhuma menção sobre Mao em sua principal atividade durante o dia, conforme relatado pela mídia estatal. Ele foi a uma escola de Pequim na véspera do Dia Professores da China, queé celebrado no sábado.

O presidente sofreu pessoalmente durante a Revolução Cultural, quando seu pai foi preso. Xi foi enviado para o campo para viver com os camponeses, como milhões de outros jovens chineses urbanos.

A figura de Mao ainda aparece por toda parte na China, das notas de dinheiro até seu enorme retrato na praça Tiananmen de Pequim, uma herança cuja gestão continua sendo incômoda para o Partido Comunista Chinês (PCC).

? Mao é ao mesmo tempo o Lênin e o Stálin do PCC ? declarou à AFP Frank Dikötter, especialista do período maoísta da Universidade de Hong Kong. ? Como Lênin, levou o Partido Comunista ao poder. Como Stálin, cometeu crimes chocantes contra a Humanidade.

Filho de um agricultor abastado, Mao buscava transformar seu país em um paraíso socialista, um sonho pelo qual não cedeu minimamente. Cofundador do PCC em 1921, chegou ao poder 28 anos depois, após ter lutado contra os japoneses e vencido o Exército governamental chinês.

Em 1º de outubro de 1949, proclamou a instauração da República Popular diante da Praça de Tiananmen. Mas os abusos não demoraram a chegar.

Obcecado para perseguir os contra-revolucionários, Mao ordenou múltiplos expurgos, que deixaram centenas de milhares de vítimas.

No fim dos anos 1950, seu ?Grande Salto Adiante?, uma campanha econômica de objetivos irreais, acabou com a agricultura e provocou uma fome que custou a vida de dezenas de milhares de chineses.

Na década anterior a sua morte, lançou e dirigiu a Revolução Cultural (1966-1976), uma orgia de violência física e psicológica que comoveu o PCC e que traumatizou o país durante anos.

LEGADO CONTROVERSO

Depois que Mao faleceu, o PCC fez um balanço de sua gestão, chegando à conclusão de que foi ?um grande marxista e um grande revolucionário, estrategista e teórico proletário?, mas que cometeu ?graves erros?.

?O mais importante são suas conquistas. Depois vêm seus erros?, concluiu o partido na época, uma postura que não mudou verdadeiramente, apesar das reformas realizadas por seu sucessor, Deng Xiaoping, que transformaram a China profundamente, segundo Dikötter.

O atual presidente chinês, Xi Jinping, o dirigente mais poderoso desde o antigo Grande Timoneiro, denuncia tanto o ?niilismo histórico? quanto o ?neoliberalismo?, acusando tanto os idólatras quanto os opositores do período maoista.

? Constata-se uma amnésia, gerada pelo poder, do balanço real de Mao ? disse Fei-Ling Wang, especialista da China no Instituto Tecnológico da Geórgia.

CENSURA

Qualquer crítica direta continua sendo perigosa: em 2015, um apresentador da televisão pública foi suspenso após a divulgação de um vídeo no qual aparecia cantando uma música que ridicularizava Mao durante uma festa particular.

Por sua vez, alguns elogiam a ideologia maoísta para criticar o rumo capitalista que a economia chinesa tomou.

? Os cidadãos, os artistas e os militantes devem navegar constantemente entre as fronteiras difusas do que é politicamente aceitável ? estimou Jessica Chen Weiss, especialista em política chinesa da Universidade Cornell de Nova York.

No entanto, a herança de Mao continua sendo muito subjetiva, destacou Jeff Wasserstrom, historiador e autor de uma obra sobre a China moderna.

Um trabalhador desempregado estará mais inclinado a idealizar ?o Mao heroico dos anos 50, falando dos agricultores como de donos naturais da sociedade e prometendo aos homens como ele empregos para a vida toda?, explicou Wasserstrom.

Pelo contrário, as vítimas da Revolução Cultural o considerarão “um personagem senil, culpado de decisões ruins, que afundou a China no caos”.

VENERAÇÃO

No entanto, alguns chineses conservam uma sincera veneração por Mao, às vezes considerado um semideus, explicou Li Yaxing, professora de Pensamento Mao Tsé-Tung na Universidade de Xiangtan, na cidade natal do ex-líder.

? Ninguém é perfeito. A Revolução Cultural foi um erro cometido no caminho ao socialismo de características chinesas ? declarou.

Naquela época, o mundo havia conhecido poucos personagens dotados de uma aura como essa, segundo Li.

? Nem mesmo Jesus gozava de uma reputação tão grande.

Para Dikötter, a relação entre os líderes chineses atuais e Mao descansa mais nas considerações pessoais que no respeito. Para eles, o caos do período maoista é como um segredo de família.

? A maioria dos dirigentes e suas famílias estavam envolvidos naquela época, incluindo a família de Xi Jinping ? declarou. ? Todos os membros do Partido têm interesse que não seja feita uma análise real da História. Todos se interessam em garantir que o retrato de Mao continue bem preso na praça Tiananmen.