Cotidiano

Analistas temem saída de capitais de China e outros países asiáticos

263253098_1-11.jpg

PEQUIM – Muito antes de encerrada a apuração dos votos que confirmariam a saída do Reino Unido da União Europeia, uma onda de medo tomou os mercados asiáticos. As bolsas do outro lado do mundo, onde os operadores acordam mais cedo, despencaram enquanto acompanhavam perplexos a contagem dos votos que surpreenderia europeus e os próprios britânicos. Foi a pior queda dos últimos cinco anos. No Japão, o índice Nikkei, caiu 7,9%, no que foi o pior desempenho desde janeiro de 2011. O Hang Seng, de Hong Kong, também teve queda expressiva, assim como a bolsa da Austrália.

brexit mercado 2406

A libra comandou o nervosismo depois de bater a menor cotação desde 1985 e deixar no ar dúvidas de que a sua desvalorização poderia contaminar outras moedas dos países asiáticos. O won sul-coreano, por exemplo, registrou o seu valor mais baixo em relação ao dólar em quase cinco anos. Os bancos centrais da Coreia do Sul e da Índia teriam feito intervenções importantes no mercado, após o anúncio do Brexit, embora as autoridades locais não tenham confirmado oficialmente os movimentos identificados pelos analistas. No entanto, algumas vieram a público para garantir que estão preparadas para lidar com as turbulências.

? O governo fará de tudo para minimizar qualquer impacto negativo que o Brexit poderá vir a ter na economia sul-coreana ? disse o vice-ministro de Finanças da Coreia, Choi Sang-mok, na saída de uma reunião de emergência em Seul, a segunda do dia, da qual participaram as principais autoridades financeiras do país para discutir maneiras de evitar as consequências negativas da decisão britânica sobre o mercado.

Já o ministro de Finanças do Japão, Taro Aso, afirmou que vai monitorar com cuidado os desdobramentos para o mercado e já avisou que responderá quando e se necessário nos mercados de câmbio. Na contramão dos planos do governo japonês, o iene ganhou 3,45% em relação do dólar, a maior cotação desde novembro de 2013. A moeda japonesa e o ouro, que valorizou-se 8,1%, foram vistos como uma espécie de porto seguro para os investidores que agora se preparam para um novo cenário no mundo financeiro. O banco central das filipinas também disse que acompanharia o mercado e tomaria as medidas cabíveis, se necessário.

O Banco Popular da China, o BC chinês, inundou o mercado com US$ 26 bilhões na sexta-feira, dobrando a injeção líquida da semana, a maior em dois meses. Mas há quem diga que o movimento foi mais um resposta à tradicional falta de liquidez de fim de semestre, como já aconteceu outras vezes, do que propriamente uma resposta ao Brexit. O yuan bateu a menor cotação em relação do dólar desde janeiro de 2011.

Ainda é cedo para dizer o que vai acontecer de fato, mas analistas temem uma saída expressiva de capitais da China e outros países asiáticos para enfrentar as turbulências e certo pânico nos mercado globais em função das consequências ainda desconhecidas do Brexit. A gigante do mercado mobiliário China Securities não descarta que as ações chinesas caiam de 5% e 10%. Em Hong Kong, o secretário de Finanças John Tsang Chun-wah já avisou que a praça financeira se preparou para as turbulências em vista. E garantiu que o sistema bancário de Hong Kong tem liquidez suficiente para se defender de ?volatilidades”.

brexit mercado 2 2406

Os economistas agora começam a fazer contas para tentar entender o que está por vir. Acompanham apreensivos os desdobramentos desta que está sendo considera uma sexta-feira negra no Ocidente na expectativa de como abrirão os mercados nesta parte do planeta na segunda-feira, quando a atitude drástica dos britânicas terá sido melhor digerida.

Existe uma forte preocupação com as novas bases das relações da China com os britânicos e com a própria União Europeia (UE). Entre os chineses, acredita-se que o Reino Unido dava um tom menos protecionista às negociações com o bloco. O país era considerado um grande aliado dentro da UE, sobretudo para a elaboração de acordos de cooperação e novos investimentos.

De 2000 a 2015, os chineses também se impuseram como grandes investidores no mercado britânico. O Reino Unido foi o principal destino dos investimentos diretos chineses, que somaram US$ 16,6 bilhões no período, segundo dados da americana Brookings Institution. Eles compraram a tradicional London Taxi Company e são donos de fatias significativas dos aeroportos de Heathrow, o sexto mais movimentado do mundo, e de Manchester, onde têm um projeto de mais de quase US$ 200 milhões em uma área nova que deve servir de base a companhias chinesas interessadas em se estabelecer em solo britânico. As gigantes de tecnologia Huawei e Tencente também abriram recentemente centros de pesquisa e desenvolvimento no país.

Tudo isso, no entanto, sempre teve com o pano de fundo o entendimento de que o solo britânico estava dentro das confortáveis fronteiras da da UE. Isso significa tributação favorecida, ou zero, e outras benesses previstas no âmbito do bloco para os seus sócios. Dentro da UE, o Reino Unido é o segundo maior parceiro comercial da China, o que pode provocar o relançamento de negociações comerciais há muito pacificadas com novas condições. Se serão mais ou menos favoráveis, ainda não se sabe.